sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Bye bye, Joker.

Considerações breves sobre "Batman - The Dark Knight", em cartaz nos cinemas: tá bom, fãs de quadrinhos de plantão, até entendo o frenesi que vem causando. Porém, entendo no sentido de aceitar, e não de compreender. Batman é, pura e simplesmente, um filme feito para impressionar o grande público, se pautando em grandes performances e efeitos especiais ainda mais grandiosos; e, é claro, não podemos esquecer das atraentes vantagens que as salas super modernas de cinema hoje em dia oferecem. A tecnologia é tanta e tão bem feita que temos a impressão certa de que as explosões estão ocorrendo ao nosso lado e o Coringa está sussurrando nos nossos ouvidos um "why so serious?" de dar (muito) medo. Agora, experimente alugar o filme quando sair em DVD e vir na sua sala de estar um tanto mais modesta. Posso garantir que a impressão não será a mesma. Tudo bem, nada contra, mas não me diz muita coisa. É barulhento demais, longo demais, e o roteiro é, no fim das contas, superficial. Não seria capaz de segurar três horas se não fosse por presenças como Michael Cane e Heath Ledger. Mas ninguem vai assistir Batman esperando grandes lições de vida. Ou vai?
O que, de fato, merece nossa atenção é o Heath Ledger. Colocando de lado todo clichê sentimental que nos expõe ao perigo de previamente achar o cara genial só porque morreu cedo e tragicamente, assisti-lo criar uma nova faceta para o Vilão-palhaço só me fez sentir uma angústia profunda pelos muitos anos que o Cinema perdeu de Heath Ledger, e pelos muitos projetos certamente brilhantes que ele ainda realizaria. Heath era um ator profundamente talentoso, versátil e esforçado, sem dúvidas um grande ator em potencial. É uma pena ter nos deixado tão cedo, tendo provado tão pouco, ainda que intensamente, do que ele era capaz de oferecer. Esses papos de que o Coringa matou o Heath Ledger, que o Nicholson avisou, essa ladainha de Oscar póstumo ... nada disso interessa; corre o risco, inclusive, de ser forçado demais. O que interessa, e importa, é que o Joker de Heath fez com que ele fechasse as cortinas em grande estilo, marcando para sempre as nossas mentes como muito mais e muito melhor do que um James Dean moderno, mas como a prova do que é capaz de realizar um ator inspirado quando mergulha profundamente em seu personagem, e principalmente, quando tem o verdadeiro - e valiosíssimo - dom de atuar. Já deixou eternas saudades.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

"Eu bem que avisei a ela, o tempo passou na janela e só Carolina não viu." (Chico Buarque)

Passo o tempo. Enquanto o tempo passa, passo eu. O tempo passa sem mim enquanto eu passo pelo tempo. Vejo o tempo passar e espero. E é a inútil espera que mata o tempo, este que continua a passar ainda que eu não passe por ele. O que é a espera, além de crepúsculos que se somam sem acontecimentos frente ao meu olhar de memórias? Pelo que a espera é constituída, se nem eu mesma sei o que quero que venha? Sei, pois, muito mais do que eu não quero, e assim, a espera vai se fazendo de negações medrosas, de estranhos receios do desconhecido que me espera ali, a segundos, na rosa que nasceu, na gente que sambou, no barco que partiu...em tudo que ainda não tive, vi, vivi. Ainda negando, e ainda que negue, espero. Espero esperando um dia esperar sem negar; esperar pelo perpétuo, pela promessa do imutável ideal. Mais ainda, espero um dia não mais ver passar o tempo esperando, mas passar junto com o tempo. Ver o tempo passar na janela e saber, finalmente, que não preciso mais esperar.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Cada desgraça é um flash.

Dessa vez eu tive uma desculpa para o meu sumiço. Não que ela tenha muita credibilidade, porque sempre rola aquele ar de picaretagem, mas dessa vez há uma verdade maior. Todos sabem que sou uma universitária, correto? E como toda universitária, sofro com finais de semestres. Esse foi especial, ou pelo menos, especialmente atarefado. Um dos trabalhos de uma matéria que estou fazendo era cobrir o Cine Sul, o festival de cinema híbero-americano que rolou durante as duas semanas passadas aqui no Rio de Janeiro. Posso confessar eu gostei? De início, tive aquela leve preguiça de ir até o centro da cidade só para assistir primores como documentários colombianos e mexicanos, mas no fim das contas, felizmente, me surpreendi. Não pela qualidade do que assisti, mas pelo fato de que, volta e meia, acredito que é importante mesmo, para mim, assistir ao que os caras tão fazendo lá fora e que não tem tanta repercussão aqui dentro. Temos, sim, mais similaridades com nossos hermanos do que pensamos. Porém, apesar de ter assistido muita coisa dos nossos vizinhos aqui da América Latina, talvez o filme que mais tenha me agradado tenha sido um brasileiríssimo.
“Abaixando a Máquina – Ética e Dor no Fotojornalismo Carioca” é um documentário brasileiro de 2007 que joga os holofotes em um assunto que, embora passe pelas vidas dos cidadãos que abrem os jornais todos os dias, raramente torna-se foco de questionamentos: a vida dos fotógrafos que vivem de fotografar as cenas mais grotescas da realidade carioca, como a guerra do tráfico, a fome, a pobreza, e até mesmo enterros de totais desconhecidos, que vêm a ser as vítimas dessas calamidades.
Durante quatro meses, o diretor Guilhermo Planel e sua equipe entrevistaram um time de especialistas no assunto: os maiores fotógrafos dos maiores jornais do Rio de Janeiro, nomes como Alcyr Cavalcanti, Alaor Filho, Alex Ferro, Alexandre Brum, André Teixeira, Berg Silva, Carlo Wrede, Custódio Coimbra, Daniel Ramalho, Domingos Peixoto, Estefan Radovicz, Evandro Teixeira, Flávio Damm, Gabriel de Paiva, Ignácio Ferreira, Ivo Gonzalez, João Laet, Luis Alvarenga, Luis Morier, Marcelo Carnaval, Marcelo Franco, Marcia Folleto, Marcos Tristão, Michel Filho, Nilton Caludino, Orlando Abrunhosa, Patrícia Santos, Severino Silva, Uanderson Fernandes e Wilton Jr. Além de entrevista-los, a equipe acompanhou alguns deles em seus dias de trabalho, inclusive colocando-se no meio do fogo cruzado de um tiroteio entre traficantes e policiais, o que não só confere ao filme um caráter realista, mas promove uma sensação de tensão no espectador ao assistir as imagens confusas, misturadas aos sons de tiros e gritos, o que tira de tal situação o status da “realidade próxima” que não está tão próxima assim, uma vez que só participamos dela lendo os jornais, e nos insere dentro da mesma, causando um desconforto, e até um medo em relação ao que pode estar por vir.
Fazendo jus ao gênero, “Abaixando a Câmera” se constitui de entrevistas e depoimentos, misturados às próprias fotos da dura realidade a qual o filme retrata. A luz utilizada é primordialmente natural, sem grandes efeitos, e as imagens do dia-a-dia dos fotógrafos são filmadas com a câmera na mão, sem preocupações estéticas mais elaboradas. O filme é eficaz quando se propõe a emocionar o espectador, ao colher depoimentos igualmente emocionados dos próprios fotógrafos e ao chamar atenção para o fato de que por trás das lentes da objetiva há um ser humano que também sofre e sente com as situações, e que precisa se dividir muitas vezes entre ajudar o fotografado vítima da crueldade, papel do cidadão de bem, e exercer seu trabalho e fotografar a crueldade, papel do jornalista. Os pré-julgamentos que porventura podem vir a surgir, como o argumento de que os jornais estão mais interessados em vender a realidade cruel do que ajudar a consertá-la também são postos em tela. Deixando os princípios capitalistas imutáveis de lado, os próprios profissionais fazem questão de deixar claro que o maior intuito individual de cada um deles (o que inclusive é, também, um impulso para eles continuarem fazendo o que fazem) é ajudar a mudar a realidade, uma ajuda que pode vir ou não a partir do momento em que estampa-se o absurdo que se passa em lugares como a Baixada Fluminense nas primeiras capas dos jornais, valendo-se menos do sensacionalismo e mais do sentimento de revolta. Infelizmente, porém, a população num geral está tão acostumada com tais manchetes que não mais se comovem, pelo menos não a nível de querer fazer algo, com elas. Uma vez que um documentário, por mais imparcial que se proponha a ser tem, como qualquer arte, um toque do seu realizador ao fundo e, por isso, jamais conseguirá ser totalmente imparcial, percebe-se que o filme apóia essa idéia de que os profissionais do fotojornalismo não vendem a crueldade, beneficiando-se dela, mas procuram, a seu modo, mudá-la, principalmente ao colher depoimentos também de psicanalistas, como uma doutora que afirma que “O obsceno está na realidade, não na foto.”.
Assim, tomamos contato, senão pela primeira, por uma das primeiras vezes, com os seres humanos que existem por trás de cada foto. Seres humanos que deixam suas famílias todos os dias para enfrentar as piores e mais perigosas cenas, e o filme também apela para esse lado clichê e sentimental, ao retratar os fotógrafos com suas imagens de São Jorge no bolso e outros amuletos de proteção. Ainda assim, seres humanos que se arriscam como kamikazis em prol de um clique perfeito, mas que não deixam de se questionar. E as mesmas questões que eles possuem são as que “Abaixando a Câmera” nos deixa: Qual a capacidade que essas fotos possuem de nos comover? Será que a quantidade de sangue derramado e fotografado é diretamente proporcional ao choque no leitor? Qual é o limiar entre o exibicionismo e o “lucrar com a desgraça” alheia e a tarefa da exaustiva tentativa de alertar o povo, com a melhor das intenções? Afinal, qual é o momento de “abaixar a câmera”, ou seja, aquele momento em que todo e qualquer profissionalismo precisa sucumbir e dar espaço à ética, ao respeito e à cidadania. Pessoalmente, saí do cinema com essas e várias outras questões que até hoje não foram respondidas na minha cabeça, e realmente acredito que o filme se propôs menos a achar respostas e mais a implantar perguntas. O que é certo é que entendemos que a profissão do jornalista, uma vez que maneja a realidade ao escolher qual cena retratar, qual ângulo escolher, qual lente usar, ou seja, qual viés da informação passar para a sociedade num geral é tão importante que chega a ser perigosa. Por fim, a certeza com a qual saímos é a que um toque é igualmente crucial se dado em um botão de máquina fotográfica ou em um gatilho. As conseqüências é que, preferencialmente, serão distintas.
ps: Os trabalhos de fim de semestre continuam. Não, ainda não estou de férias. Damn it.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

O sexo, a cidade, e eu.

Costumo reclamar com freqüência que, desde que entrei na faculdade de Cinema, perdi o encanto com ele. Não consigo mais assistir a um filme sem pensar no posicionamento de câmera, no enredo, na atuação do ator, na direção de arte, nos efeitos óticos possivelmente usados. Em todos os aspectos técnicos que os profissionais - e aprendizes a tal - precisam dominar para que o grande público jamais perca o tal encanto. Aprendemos que o cinema chamado clássico-narrativo, que Hollywood nos acostumou a assistir e consumir, tem como grande trunfo e característica “esconder” suas artimanhas técnicas cinematográficas, ou seja, tornar invisível ao máximo que aquela cena específica só foi possível com o trabalho de dezenas de pessoas e uma infinita parafernalha por trás das câmeras. Não há câmeras nesse cinema, somente os nossos olhos, observando um mundo que não nos pertence, mas que nos envolve, como um voyer ao espiar pelo buraco da fechadura. Ainda assim, em raras ocasiões, felizmente, consigo me sentir leiga. E isso acontece quando o estigma de quase-graduada dá espaço a uma personalidade mais avassaladora: a de fã incondicional. Foi assim que me senti hoje quando, sozinha, no meio da tarde, me acomodei em uma poltrona para assistir ao meu quarteto preferido de amigas, que eu não via há quatro anos, e que fiquei tão feliz ao descobrir que elas continuam, apesar das mudanças do tempo, essencialmente as mesmas. Porque é assim desde que eu assisti ao primeiro episódio de Sex and the City, ainda na televisão, e eu jamais poderia deixar de dedicar uma crônica à elas. Para mim, era muito mais do que uma série, um simples entretenimento. Durante anos, assistir os questionamentos, conversas, sexos, casos, dilemas de Carrie, Miranda, Charlotte e Samantha era quase como uma terapia, e elas eram as analistas profissionais que eu não precisei pagar. Por meio delas eu aprendi não a entender os homens e os sentimentos, mas a aceitar que é impossível entender algo que escapa da lógica convencional e obedece às loucuras que somos capazes de sentir. Quando a série acabou, sem exagero, foi como se algo faltasse para mim. Aquele encontro semanal que não mais existia doía no meu cotidiano. Mas o filme compensou o tempo de espera, e a saudade que eu senti. E aqui digo com nenhum olhar crítico. Me rendi, hoje, aos encantos da ignorância. Fui como devota de Bradshaw, e assim permaneci durante quase duas horas e meia. Quatro anos depois, Miranda ainda mora no Brooklyn e é a mãe de um menino ruivinho, aquele que eu vi na barriga dela, aquele que eu vi estragar o Christian Louboutin da Carrie quando a bolsa estourou. Charlotte, ainda casada com Harry, também é mãe, mas de uma menina chinezinha linda que aprendeu a falar “sex” com a tia Samantha. Esta, sempre fabulosa, está morando em Hollywood com o Smith, e vive no avião para Nova York, visitar as amigas. Aliás, uma breve interrupção para mencionar Nova York: linda com o passar das estações, glamurosa e cheia de vida. E Carrie, três livros depois, está com ele .... ele que fez milhares de mulheres suspirarem por 6 anos, ele que, chorando, foi até Paris dizer “you’re the one” para ela, ele que só viemos a descobrir no final que se chama John, mas que para nós será sempre o Mr. Big. E um fabuloso desfile de marcas, roupas, bolsas, acessórios, muitos e muitos sapatos. Tudo infinitamente mais fabuloso, do jeito delas. Só no primeiro final de semana, Sex and the City, the movie, arrecadou 55 milhões de dólares só nos EUA. Méritos para o incrível merchandising, que não poupou um meio de divulgação. Porém, mais do que isso, encontra-se no segredo do sucesso da série o sucesso de bilheteria. Talvez o motivo maior, ou pelo menos o mais evidente, para mim, do fenômeno que Sex and the City foi, e continua sendo, se encontra no fato de que cada uma das personagens se enquadra perfeitamente na “girl next door”. Não são super modelos, super heroínas, estereótipos ilusórios com os quais a mulher comum jamais conseguiria se identificar. Sarah Jéssica está longe de ser um modelo de beleza. É miúda, magrela e nariguda. Ainda assim, conquistou nossos corações, pois vimos nela a sinceridade que faltava nas personagens femininas da TV, já que ela passava por tudo aquilo que nós passávamos, e ainda falava, pela primeira vez, abertamente sobre sexo e outros assuntos tabus. E tudo isso ainda está lá, com um toque a mais que a maturidade e o dinheiro trazem. Por essas e outras que foi tão bom revê-las, como se fossem velhas amigas, e saber que estão bem, estão lindas, e estão tocando suas vidas. Elas existem, eu sei, no mundo infindo da imaginação e do glamour. Sei também que não posso mais encontra-las semanalmente com casos novos a serem contados e revelados, mas para sempre elas terão, cada uma a seu jeito, marcado a juventude de uma garota que pode até estar longe de NY, dos Manolos e dos Cosmopolitans, mas que, como sua musa, sente a mesma emoção sem culpa com um novo par de sapatos, o mesmo deleite de ter amigas divertidas e ouvintes, e principalmente, a mesma infinidade de interrogações na cabeça ao se deparar com uma tela branca de notebook, a espera de ser preenchida com palavras e mais palavras que nada mais são do que questionamentos verdadeiros, e que, provavelmente, nunca serão respondidos.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

"Por ela esse amor infinito, o amor mais bonito..."

No fim de semana que passou foi o tal do Dia das Mães. Segundo o Jornal da Globo, o segundo feriado mais rentável para o comércio do país, só perdendo para o Natal. Particularmente, acho uma besteira todos os feriados desse tipo. Dia das Mães, Dia dos Pais, Dia das Crianças...todos eles. Em primeiro lugar, por motivos óbvios: todos eles caem no segundo domingo de um determinado mês, o que amplia sua inutilidade, pois nem mesmo para matar aula eles servem (grande pensamento de uma universitária, hein?). E em segundo lugar, também óbvio, pelo clichê: não é justo existir somente um Dia das Mães. Para mim, todos os dias são dias Dela. Não sei quanto aos leitores, mas a minha mãe mereceria os 365 do ano só para ela. Dona Suzana é tão especial, mas tão especial, que até dois aniversários ela tem. Mais do que isso, ela é um exemplo vivo para mim de carinho e comprometimento incondicionais. É com uma dedicação tamanha que ela cuida de mim, do meu pai, da casa, da família, sem nunca cobrar nada. Me culpo por as vezes não entender suas reclamações, afinal, é tudo ela. Mas no fundo é ela quem quer que seja tudo ela, porque a verdade é que ninguém resolveria os pepinos tão bem quanto ela. É para ela que eu corro quando estou feliz com algum acontecimento, é no colo dela que eu choro quando estou triste, é nela que eu desconto minha raiva com coisas aleatórias no mundo, e vice versa, porque sabemos que, no fim, a gente sempre se perdoa. É para ela que eu conto meus medos, meus desejos, minhas aflições que revelam tanto de mim que eu não tenho coragem de revelar a mais ninguém, pois sei que só ela me ama o suficiente para entender. É para ela que eu dedico minhas vitórias e conquistas, porque se não fosse a força e o encorajamento que partem dela, nenhuma das belas coisas que consegui e consigo em minha vida teriam sido ou seriam possíveis. Estava eu assistindo televisão um dia desses quando passou um comercial com o Wagner Moura, de alguma loja que eu não me lembro agora, para a campanha do tal feriado. Nele, Moura dizia palavras muito certas em relação a mães: elas carregam um peso absurdo na barriga durante nove meses, sentem enjôo e cólicas ... e estão felicíssimas por isso. Sentem chutes na barriga durante a gestação e dores horrendas na hora do parto, mas mal podem esperar para nos ver. Depois disso, quando nós, filhos, crescemos, roubamos o tempo delas, a atenção da família, o tempo do marido delas, damos dores de cabeça, preocupações, angústias ... e o amor que elas sentem por nós só faz crescer. Acho que só quando for mãe conseguirei entender essa plenitude que todos falam. E a verdade é que, quando eu mesma tiver meus rebentos, vou errar e acertar como ela e como todas as outras, mas vou almejar ser, pelo menos, metade da mãe que ela é para mim, sabendo que, assim, já estarei fazendo um excelente trabalho. Por isso, MÃE, já que resolveram te dar um único dia, aproveito o mesmo para dizer que sei bem não sou uma pessoa perfeita, nem uma filha perfeita. Mas saiba que eu tento ser o melhor que eu posso, e dessa maneira, tentar te dar o máximo de orgulho possível. Porque você merece demais. Você, que sempre deu tanto e pediu tão pouco em troca.
Por mim eu te daria todos os dias do ano em sua homenagem. Como não é possível, te dou, humildemente, um texto neste meu inóspito blog. Não é muito, mas é de coração.

terça-feira, 29 de abril de 2008

(mais uma) Sobre o tempo (que foi.)

Me peguei hoje em um momento de saudosismo em relação à minha adolescência. Nostalgia braba. Talvez por ter passado ontem na frente do meu antigo colégio, no qual tive deliciosas e perturbadoras experiências no ensino médio, que me valeram um tanto. Fiquei pensando como era boa essa época de colégio. Como eu aprendi infinitamente mais do que o que os professores, em sua maioria queridos de verdade, escreviam no quadro negro e eu tinha que aprender, me interessando ou não. Como foi uma época importante para a formação concreta das bases do meu caráter e da minha personalidade de hoje, seja lá o que isso signifique. E, principalmente, como era bom ter como maior preocupação a prova bimestral ou a aprovação no fim do ano. Hoje me pego uma faculdade inteira depois dessa que parecia outra vida. Aquela menina de uniforme azul e cabelos ainda não loiros não é nem de longe quem eu sou hoje, mas era certamente o cerne disso. A origem de tudo. Não sei se isso é necessariamente melhor ou pior, porque não sei até que ponto a perda da inocência é, de fato, enriquecedora. É tão bom, de vez em quando, ser inocente e achar que o mundo é feito de pessoas boas, que o amor só rima com dor por acaso e que as nuvens são feitas de algodão doce. Não o são, mas a gente aprende a lidar. Naquela época eu achava que tinha que ter todas as respostas do mundo. Que tudo estava ao meu alcance, poderia e deveria ser respondido. Hoje, eu até gosto do fato de não ter praticamente resposta alguma, somente cada vez mais perguntas. Mais do que isso, já me conformei com o fato de que, infelizmente, nem tudo está ao meu alcance. Eu não posso tudo, eu não sei tudo. E, certamente, isso não vale só para mim. Por mais intensa que seja a nossa vontade, é simplesmente impossível que a vida seja exatamente da maneira que nós planejamos. Nem sempre conseguimos fazer quem amamos retribuir o nosso amor, salvar a vida de alguém querido, consertar o que fizemos de errado, por mais que isso nos doa. E aceitando isso, procuramos, tão somente, fazer o nosso melhor, e dormir um sono tranquilo à noite. Em minhas incansáveis andanças por esse mundinho, conhecendo e desconhecendo pessoas, aprendi algumas coisas; é bom saber e querer estar sempre aprendendo, acho que é esse um dos grandes baratos da vida. No fim, o que você leva de herança nada mais é do que bagagem pessoal, aquilo que você viveu, e o quanto você viveu daquilo. Assim, ouvi dizer que é possível, sim, crescer. Só ainda não conheci ninguém que tenha alcançado isso em sua forma mais plena. Crescer é amadurecer? Amadurecer é perder a inocência? Perder a inocência é deixar de acreditar na beleza daquilo que nos cerca? Como dito, não sei as respostas para estas, e para mais tantas outras perguntas. No fundo, considero, sim, que eu cresci e tenho crescido, mas a tal menina do uniforme azul nunca saiu totalmente de dentro de mim. E, sinceramente, espero nunca perde-la de vez, em algum espaço ou tempo. Nesta época, nesses remotos tempos que parecem tão longe e inalcançáveis quanto uma eternidade, mas que ao mesmo tempo nunca estiveram tão próximos, essa menina leu um dos livros da sua vida: A Insustentável Leveza do Ser. Com ele, ela aprendeu a transformar o peso do fardo que cada um carregamos nas costas na leveza de uma pena. Há quem diga que ela se enganou, e vive se enganando. Mas, para quem trabalha com a fantasia, talvez isso não seja um problema tão grande. A única resposta que consegui obter por meio de mil e uma teorias concebidas no interior da minha mente irritantemente fértil é que o ato de crescer começa quando se aceita que não há ensaios na vida. Para a perfeição de acontecimentos temos a arte, que pode ser ensaiada e refeita até atingir o grau de excelêcia. Na vida real, no hoje, é matar ou morrer. É arriscar ou abdicar da experiência. É aceitar que não se é feliz o tempo todo, mas que se tem momentos de felicidade, enfim. E, então, é saber fazer desses breves, fugazes e desconcertantes momentos de felicidade, a plenitude da própria vida.

domingo, 13 de abril de 2008

Pensamentos breves sobre viagens, também breves.

Certa vez, o poeta disse “Navegar é preciso; viver não é preciso.”. Talvez nessa época navegar fosse o único meio de viajar, e o propósito de tal ato não fosse o mero lazer. Se algum poeta contemporâneo, tentando retomar Pessoa, escrevesse tais versos hoje em dia, é provável que algumas modificações fossem necessárias, afinal, ninguem mais navega hoje em dia, a não ser em esporádicas situações de cruzeiros ultra chiques. Eu, por exemplo, começaria com “Viajar é preciso.”. E é. Há pouco tempo estive em Porto Alegre, pela primeira vez em muitos anos. Não lembrava de absolutamente nada da cidade, onde estive algumas vezes a trabalho quando criança, então era como um lugar totalmente novo pra mim. E o novo, de fato, assusta. Pega de surpresa as vezes, de supetão. E tudo era novo em Porto Alegre. Os lugares, as comidas, os cheiros, até mesmo as pessoas que, aqui, não eram tão novas. E é por isso que eu sempre digo: viajem muito, sempre que puderem. Pro interior do seu estado ou pra Coréia do Norte, de carro, de trem, de avião ou, como os tais antigos, de navio. Mas fuja da rotina, respire novos ares, prove novos sabores e temperos, conheça novos lugares, novas noites, novos espaços. Tenha uma paixão repentina e enlouqueça com ela, porque você sabe que, como as outras, ela também vai passar. É claro que, no meio do caminho, você vai encontrar percalços, vai tropeçar, vai se machucar e vai machucar os outros. Nem todos pensam igual, e isso é, então, inevitável. Se machucar alguém, peça desculpas e se redima, mesmo se achar que está certo, pois poderia ser você com o coração partido. Se de fato o é, extravase e diga o que pensa, na raiva ou na tristeza, para poder depois seguir em frente com a vida, porque o tempo não perdoa ninguém. Faça amigos nas viagens para que sempre sinta vontade de voltar, e tenha sempre uma casa pra te acolher em todo e qualquer rincão desse mundo, vasto mundo. Troque experiências e culturas. Converse muito, vire noites trocando idéia, essa é a maior bagagem que você pode ter. Fotografe, filme...grave seus momentos especiais. Eles jamais voltarão, mas é possível revive-los um pouco por meio das memórias registradas. Nunca deixe para dizer amanhã o que se passa pela sua cabeça hoje, para alguém específico ou para o mundo, pois talvez amanhã essa pessoa não esteja mais aqui, e o mundo não queira te ouvir. Se tiver tido paciência para ler essa baboseira impensada até o fim, aqui vai um ultimo conselho: não planeje demais as suas viagens, apenas o suficiente para não passar perrengues e dificuldades. Vez ou outra, pegue o carro e saia dirigindo, ou compre uma passagem de avião por impulso, e deixe que a vida se encarregará de te apresentar as surpresas. Nem sempre você vai gostar delas, mas esteja certo de que, no final, era o melhor pra você. Não costumo repetir o que digo, e só o faço quando acho deveras importante. Por isso, digo novamente, desta vez: Viaje sempre, sempre que puder. E não se esqueça, principalmente, que a vida é esse emaranhado confuso de coisas que acontecem enquanto você acha que está muito ocupado planejando ela. No fim você descobrirá, ainda, que não há nada como voltar pra casa. Acredito que vivi POA o máximo que me foi possível, e foi boa a descoberta desse "novo novo", mas nada se compara a ver da pequena janelinha do avião a minha cidade toda iluminada à noite, tão linda. Nesse momento eu só pensava que ali estavam os lugares, as pessoas, os sabores, os cheiros, tudo que me era mais familiar, e é importante voltar pra casa, também. Não sei de muito, mas disso eu sei. Viajar é preciso sim, poeta. Mas viver...Viver também é preciso.