sexta-feira, 6 de março de 2009

Entre clichês e saudades.

Uma das frases mais clichês e usadas no Orkut (não gosto do termo “site de relacionamentos...Orkut é Orkut, é besteira mesmo.), é aquela que diz que “quem inventou a distância nunca sentiu saudade.”. E eu sou naturalmente inclinada a um bom clichê, principal e estritamente quando bem colocado.

A saudade é, ela mesma, um assunto que ronda muito do que penso e escrevo. A parte boa dela, inclusive. Porque é gostoso sentir saudades do bichinho de infância que morreu, saudades dos tempos de colégio, saudades daquele amigo que você perdeu o contato pela vida. Saudades de uma festa, de um aniversário, do primeiro beijo, de um presente de natal. Um dos textos que mais gosto sobre saudade é um do Miguel Falabela, que diz que saudade é não saber. Não saber dele, ou dela, e ainda assim doer. É lindo. Google Falabela. É certo!

Mas a saudade que de fato incomoda no peito é a saudade de uma paixão, porque ela acontece, na grande maioria das vezes, quando o fogo de uma das partes apagou, ou diminuiu a chama. E ao outro, só resta a saudade. Não é uma saudade gostosa. É uma saudade que angustia, que dói. É a saudade do sentimento como ele era no início, do tanto de coisas que não chegaram a acontecer e que, mesmo assim, deixaram saudades. É a saudade que sinto agora.

Saudade de quando brincava de princesa, de quando brincava de futuro. De gostar de acreditar em meias palavras, em migalhas de atenção. De botar toda a fé existente em meu coração em algo que em si contradizia todas as regras do famoso “pode dar certo”... mas pra mim dava, fazer o que? Saudades de ter o poder de transformar a distância em somente um número, um coeficiente, uma análise física. Porque no final das contas a distância tem, sim, o excruciante poder de separar dois corpos, mas ela é ínfima na tarefa de separar duas almas. O poeta já dizia: “Eu sei, e você sabe, que a distância não existe.”. Alguem vai discutir com Tom Jobim?

Saudades, também, de me fazer rir com os amigos mais próximos, incrédulos como eu na ironia da minha própria vida, pois me conhecem até mais do que eu mesma. Da impertinência que foi começar tudo como uma brincadeira que tinha data e hora para acabar, mas não acabou. Não era brincadeira de criança, afinal. Um dia, eu acordei...e tudo que eu conseguia pensar era nele. Em todas as horas do dia, em todos os acontecimentos rotineiros. Tudo que eu queria era ouvir a voz, ainda que no telefone. E quando eu percebi que ele era a primeira coisa que eu via de manhã e a última na qual eu pensava ao ir dormir, percebi que não era brincadeira mesmo. Era sério. E, pra mim, bastava.
Era pra sempre.
Saudades de sentir isso tudo, também.

Saudades, ainda, de não ter vivido um monte de coisas boas, de tão rápido que foi. Outro clichê diz que “tudo que é bom passa rápido, mas demora o tempo suficiente para ser inesquecível.”. Concordo com esse, também. Saudade de não ter tido tempo de dançar juntinho aquela que seria, depois, considerada a nossa música. Não ter engatado naquela conversa que invade horas do dia. Não tê-lo levado pra conhecer meus lugares preferidos, para provar o sorvete que eu mais gosto, para ver o pôr-do-sol naquele lugar que só eu conheço. Não ter dito tudo que queria dizer quando ele estava ali, olhando nos meus olhos... nos lugares mais inadequados, pouco propícios ao romantismo, mas ainda assim, ali. E não ter dito não por medo ou receio, mas por não saber absolutamente o que dizer. Em parte porque olhar nos olhos dele é muito melhor e mais bonito do que qualquer poesia, e em parte porque o turbilhão de sensações que entupia minha cabeça e atravessava como flecha a minha pele era tão grande que eu mal conseguia organizar as idéias em minha cabeça.

A saudade, enfim, me faz acreditar em clichês. E citá-los. Porque ela mesma é um clichê ridículo, mal resolvido e estúpido. É um bloqueio, uma interrupção do que quer que seja, tendo interrompido algo ou não. É sentir falta do ponto alto da festa, do mais doce da vida, do sabor mais idílico que se pode experimentar. É a incapacidade de concluir o que se pretende dizer.

Por isso, paro por aqui. Não faço falsas demagogias.
Minha saudade é grande demais, e tem discernimento de menos, para que eu possa concluir qualquer idéia.
Uma crônica, menos ainda.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Eternamente uma tarde de sábado.

Todos os sábados as quatro sabia-se ali. Tempo e compromissos eram meras palavras sem significado relevante. Clima tampouco. Quase devotamente, nos fins de tarde de todos os finais da semana Luiza sentava-se em um banco na praia e olhava. Olhava o mar? Olhava o céu? Olhava a gente que deixava vagarosamente a areia? Podia ser. Sem critérios, Luiza olhava tudo. Não possuía preferências não por falta de propósito, mas por considerar tudo igualmente importante. Ou desimportante, dependia do estado de espírito. Assim ela prestava igual atenção no movimento ao mesmo tempo contínuo e mutante das ondas do mar; no barulho que elas faziam, que parecia continuar em seus ouvidos durante o resto do dia, acompanhando-a por qualquer canto. Atentava aos ambulantes que vendiam de tudo, de biscoito a óleos bronzeadores, de limonada a caipirinha, e também pipas, e óculos escuros, e cordões, e brinquedos. Luiza não refletia sobre a vida deles e nem dos aleatórios que iam à praia sozinhos, em pares românticos, em grupos de amigos, em família...estava somente interessada em olhar o momento presente das vidas de cada um deles. Tinha um quê culpado do deleite dos voyers. Talvez mais do que tudo, Luiza gostava era de olhar o breve, fugaz e estonteante momento em que o sol, ao se pôr, toca a tênue linha do horizonte que o mar se divide do céu, e o fim de tarde que até então tinha muitas cores dizia adeus ao carnaval do dia para se dedicar ao azul marinho que avisa que a noite chega, para em pouco tempo ceder lugar ao império do infinito negro. Cores. “Que belo pintor deve ser Deus”, ela pensava, todas as vezes que os rosas e amarelos e laranjas invadiam os vários tons de azul que se apresentam nos dias (de sorte) em que o céu está limpo de nuvens. Não que Luiza não gostasse do céu da noite quando, também em dias de sorte, ficava salpicado de pequeníssimos pontos prateados que eram, para ela, mais do que somente estrelas. Eram memórias, também. Seu avó, quando vivo, costumava niná-la a noite dizendo que, quando as pessoas morriam, viravam estrelas e iam brilhar pra sempre lá no céu, olhando para e pelos mortais aqui debaixo. Mas havia algo no céu do final da tarde que a encantava inexplicavelmente. Talvez fosse a sensação do término de mais um dia, a analogia deveras natural com a finitude da vida. Talvez, mas não certamente. Luiza se permitia deixar levar pela paixão das tardes de sábado, sem se questionar. Olhar, só.

Sim, tinha um quê culpado do deleite dos voyers, aquela Luiza. Aos dezoito, alimentava-se desse prazer desde os quatorze, quando ganhou sua primeira máquina fotográfica só dela. Não mais tinha que pedir emprestada a da mãe. Agora tinha autonomia do uso, tinha posse. Aos quatorze, era importante para a filha de pais separados, que cresceu assistindo a preferência de ambos pelo irmão, ter essa posse besta. E foi no primeiro da série de sábados sentada naquele banco que ela clicou pela primeira vez a tarde. Ainda que não estivesse registrado em imagem, ela lembraria da cena: era a foto de um vendedor de milho cozido que arrastava o seu carrinho, com o sol se pondo em segundo plano. O sol tocava, provocando cores igualmente belas, a pele do homem, a areia e o mar. Quase com a obrigação de um trabalho, mais de cento e oitenta sábados fotografados depois, continuava ela. Obviamente, despertou a curiosidade - da mãe, do irmão e do padrasto, que reparavam as constantes saídas com as quais não podiam argumentar, dos amigos, que só podiam marcar os programas para depois do pôr do sol, e dos vendedores cativos dos comércios na orla, que reparavam na menina-da-maquina que não largava dali. Quando questionada o motivo daquilo, Luiza somente dizia “- É pra evitar as saudades.”. Saudades de que? “Ué, saudades de tudo. Desse tudo que consigo captar e guardar pra sempre no espaço de um clique.”. Mas não eram somente pessoas desimportantes, indignas de seu conhecimento mais profundo? Não eram tardes e mais tardes que se repetiam? “Cada tarde é diferente. Num sábado tem sol e céu limpo, já n’outro algumas nuvens aparecem e são perfuradas pelo sol, que é mais forte, deixando escapar alguns poucos raios. Em alguns, não se vê nada do sol, e o branco nublado se impõe, pesado, soberano. Mas gosto também quando o céu está cinza e chove, e a impressão que dá é que aqueles milhões de pingos de chuva sobre o mar é que estão enchendo ele.”. Tinha lá suas teorias, a Luiza. Não fazia questão que ninguém entendesse. Eram dela, só pra ela foram criadas. Para Luíza, uma vez que estamos fadados a ver o tempo passar sem termos nenhum poder efetivo sobre ele, aceitando a condição de que os momentos passam e jamais voltam, nos são descarada e irremediavelmente furtados, estamos fadados, por conseqüência, a sentir saudade. E sentir sem ter motivo especial, sem carecer de datas importantes ou ocasiões memoráveis. Cada tarde de sábado que passa é uma tarde da vida que foi, e a saudade que a garota sentia era justamente dessa vida. Do que fez, do que poderia ter feito. Saudade do que iria fazer também, pois viveria uma vez só, do jeito que era. Talvez Luiza criasse explicações sem sentido para cessar com as perguntas. Não se discute a saudade alheia, afinal.

Naquele segundo sábado de setembro, porém, sentiria, talvez, a culpa do quê culpado do deleite dos voyers. Tinha acabado de clicar uma cena de um bebê com não mais de dois anos, dentro de uma piscininha de plástico com desenhos de peixinhos – “Original”, ela ironizou para si – que gargalhava a gargalhada gostosa dos nenéns ao espirrar a água da piscininha para todos os lados, num movimento repetido de levantar e se jogar de volta, sob o olhar orgulhoso da mãe, que como toda mãe, sorri cheia de si com qualquer bobagem da cria. Luiza colocou a tampinha na lente e guardou a maquina na bolsa. Levantou-se do banco e encaminhou-se para o sinal de trânsito, para atravessá-lo e pegar o ônibus de volta para casa na outra pista. Absorta em pensamentos egoístas, Luiza olhou rapidamente e julgou que não vinha nenhum carro. Mas aquela tarde estava fadada a não ser mais uma para a coleção. Luiza via tudo, só não viu aquela moto. Tampouco ouviu a buzina. Depois dali, Luiza não ouviu mais nada. Colada em suas pálpebras, ainda estava o sorriso do neném, e provavelmente foi essa imagem que ela quis guardar quando, sem se enganar, sabia que fechava os olhos pela ultima vez. Luiza, que via tudo, já não podia mais ver nada. Não pôde ver a multidão de transeuntes curiosos que por ali se aglomeravam, nem o motoqueiro que tentava desesperadamente explicar para os bombeiros que a menina tinha atravessado o sinal aberto, nem seus pais, depois de tantos anos lado a lado, chegando na trágica cena. Talvez, se viva, Luiza quisesse fotografar aquela cena. Mas a cota de cliques tinha cessado para ela.

Coladas nas paredes do seu quarto, as dezenas e mais dezenas de comprovações do delicioso deleite, não mais culpado, não mais nada, da voyer. Naquelas fotos, porém, não se viam mais praianos, comerciantes, mar, sol, céu. Naquelas fotos, via-se Luiza, e a saudade que ela sentiu, e deixou. Seu olhar estava em cada registro, em cada segundo que ficou. Como são tolos os que acham que podem prender um momento sem que haja conseqüências! Nesse caso, a conseqüência foi a saudade. E a causa também. Saudade era o que havia para ser captado, e foi o que ficou para ser sentido.


E como eram belas as cores da saudade.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Antes dos fogos de artifício...

O que eu mais gosto nessa entidade comercial chamada “festas de fim de ano” são as resoluções de ano novo. Como vegetariana, pouco aproveito da ceia de natal. Como maior de idade, não ganho mais presente do Papai Noel. E como recém-formada-desempregada, não tenho dinheiro para pagar uma super festa em algum hotel luxuoso. Sendo assim, as resoluções de ano novo são o que me restam.
Não sei se são os ares de mudança que toda virada de ano trás consigo, ou se é a parte otimista restante da minha personalidade que insiste em acreditar que o ano que vem será melhor do que o que passou, mas há algo revigorante em planejar mudanças positivas para os próximos meses quando, no fim das contas, não se pode realmente prever o que vai acontecer, somente esperar. E torcer. Dizem que essa imprevisibilidade é a beleza da vida. Vai saber...
Sou o tipo de pessoa supersticiosa. Afinal, sou alguém que tem uma pimenta tatuada no pulso para espantar mau-olhado. Logo, fiquei de olho em todas as dicas possíveis, desde as do Fantástico, passando por uma revistinha de astrologia que minha mãe comprou, e até as palavras aleatórias e pouco embasadas de amigos meus. Se me dizem que eu tenho que passar o ano com acessórios dourados, pois ano que vem será o ano do Sol, assim será. Não faço a menor idéia da diferença entre o ano do Sol e o ano da Lua, se é que ele existe, mas não cabe ao supersticioso entender, necessariamente. Ele só faz e acredita que dá certo. No ano do Sol, eu posso no mínimo ir muito à praia e tentar me conectar com ele. Não me conectar a nível de uma queimadura de terceiro grau ou uma insolação, mas conectar...não custa nada. E, obviamente, torcer para que o meu bolso também fique (bastante) mais dourado neste ano que chega. Também me disseram para usar azul, pois é a cor do meu signo. Sendo assim, pintei as unhas de azul. Todos os anos, loto a coitada da Iemanjá de pedidos e promessas. Dia desses, minha mãe sonhou com tudo verde. Ela costuma ter previsões boas, ou pelo menos eu gosto de acreditar que são previsões. De qualquer maneira, minha sandália é verde- claro, por via das dúvidas. Por via das dúvidas também, meu vestido será branco, uma vez que é a mistura de todas as cores (isso faz todo sentido do mundo), e na barra dele há listras de todas as cores: vermelho para paixão, azul para harmonia, verde para prosperidade e saúde, amarelo para dinheiro. Matei vários coelhos com uma cajadada só. O supersticioso de verdade peca pelo excesso.
Por ora, é isso. Fico por aqui desejando a todos um 2009 repleto de luz e possibilidades proveitosas. Saúde, dinheiro e a companhia daqueles que mais estimamos por perto. Que o mundo saia da crise econômica, que se acabem os conflitos na faixa de Gaza, que o Obama seja realmente tudo que esperamos que ele seja, que todos os terroristas e traficantes do mundo morram engasgados e, last but not least, que o otimismo e as vibrações positivas que pairam sobre estes últimos dias do ano inspirem todo o ano que chega. Termino com um “tudo de bom”. É clichê, mas é de coração.

sábado, 1 de novembro de 2008

Abstinência textual.

Faz tempo que não escrevo aqui. Faz tempo, inclusive, que não falo sobre o tempo, um de meus assuntos preferidos, por mais abstrato que possa ser. Este blog está sofrendo de uma abstinência braba, coitado.

Porém, mais por falta do tal tempo do que por falta de vontade de escrever. Para os leitores (há algum?), explico: estou virando gente grande, minha gente. Não, não me refiro a crescimento, pois minha altura é a mesma desde a oitava série. Também não vou casar e não estou grávida, isso está mais longe de mim do que a possibilidade de agarrar o Malvino Salvador. A grande questão é que estou me formando. Em dois meses, serei uma cineasta formada, olha que legal! Ahn...ok, eu repito para mim mesma que é legal, porque senão, depois de quatro anos, corto os pulsos. Aí tem aquela velha monografia que há tempos (olha ele aí de novo!) vinha atormentando a cabeça e, agora, mais presente do que nunca, tem tomado todo o meu tempo (ok, chega dele.).

Minha defesa é nesse mês. Estou contando os dias e os minutos enquanto tento, com todos os artifícios possíveis, fazer com que meus dias tenham mais de vinte e quatro horas.
Não é que eu esteja sem escrever. Escrever é tudo que eu tenho feito ultimamente. A diferença é a relevância do que está sendo escrito, e ainda não consegui concluir onde importa mais (ou menos) ... se aqui ou lá.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Bye bye, Joker.

Considerações breves sobre "Batman - The Dark Knight", em cartaz nos cinemas: tá bom, fãs de quadrinhos de plantão, até entendo o frenesi que vem causando. Porém, entendo no sentido de aceitar, e não de compreender. Batman é, pura e simplesmente, um filme feito para impressionar o grande público, se pautando em grandes performances e efeitos especiais ainda mais grandiosos; e, é claro, não podemos esquecer das atraentes vantagens que as salas super modernas de cinema hoje em dia oferecem. A tecnologia é tanta e tão bem feita que temos a impressão certa de que as explosões estão ocorrendo ao nosso lado e o Coringa está sussurrando nos nossos ouvidos um "why so serious?" de dar (muito) medo. Agora, experimente alugar o filme quando sair em DVD e vir na sua sala de estar um tanto mais modesta. Posso garantir que a impressão não será a mesma. Tudo bem, nada contra, mas não me diz muita coisa. É barulhento demais, longo demais, e o roteiro é, no fim das contas, superficial. Não seria capaz de segurar três horas se não fosse por presenças como Michael Cane e Heath Ledger. Mas ninguem vai assistir Batman esperando grandes lições de vida. Ou vai?
O que, de fato, merece nossa atenção é o Heath Ledger. Colocando de lado todo clichê sentimental que nos expõe ao perigo de previamente achar o cara genial só porque morreu cedo e tragicamente, assisti-lo criar uma nova faceta para o Vilão-palhaço só me fez sentir uma angústia profunda pelos muitos anos que o Cinema perdeu de Heath Ledger, e pelos muitos projetos certamente brilhantes que ele ainda realizaria. Heath era um ator profundamente talentoso, versátil e esforçado, sem dúvidas um grande ator em potencial. É uma pena ter nos deixado tão cedo, tendo provado tão pouco, ainda que intensamente, do que ele era capaz de oferecer. Esses papos de que o Coringa matou o Heath Ledger, que o Nicholson avisou, essa ladainha de Oscar póstumo ... nada disso interessa; corre o risco, inclusive, de ser forçado demais. O que interessa, e importa, é que o Joker de Heath fez com que ele fechasse as cortinas em grande estilo, marcando para sempre as nossas mentes como muito mais e muito melhor do que um James Dean moderno, mas como a prova do que é capaz de realizar um ator inspirado quando mergulha profundamente em seu personagem, e principalmente, quando tem o verdadeiro - e valiosíssimo - dom de atuar. Já deixou eternas saudades.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

"Eu bem que avisei a ela, o tempo passou na janela e só Carolina não viu." (Chico Buarque)

Passo o tempo. Enquanto o tempo passa, passo eu. O tempo passa sem mim enquanto eu passo pelo tempo. Vejo o tempo passar e espero. E é a inútil espera que mata o tempo, este que continua a passar ainda que eu não passe por ele. O que é a espera, além de crepúsculos que se somam sem acontecimentos frente ao meu olhar de memórias? Pelo que a espera é constituída, se nem eu mesma sei o que quero que venha? Sei, pois, muito mais do que eu não quero, e assim, a espera vai se fazendo de negações medrosas, de estranhos receios do desconhecido que me espera ali, a segundos, na rosa que nasceu, na gente que sambou, no barco que partiu...em tudo que ainda não tive, vi, vivi. Ainda negando, e ainda que negue, espero. Espero esperando um dia esperar sem negar; esperar pelo perpétuo, pela promessa do imutável ideal. Mais ainda, espero um dia não mais ver passar o tempo esperando, mas passar junto com o tempo. Ver o tempo passar na janela e saber, finalmente, que não preciso mais esperar.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Cada desgraça é um flash.

Dessa vez eu tive uma desculpa para o meu sumiço. Não que ela tenha muita credibilidade, porque sempre rola aquele ar de picaretagem, mas dessa vez há uma verdade maior. Todos sabem que sou uma universitária, correto? E como toda universitária, sofro com finais de semestres. Esse foi especial, ou pelo menos, especialmente atarefado. Um dos trabalhos de uma matéria que estou fazendo era cobrir o Cine Sul, o festival de cinema híbero-americano que rolou durante as duas semanas passadas aqui no Rio de Janeiro. Posso confessar eu gostei? De início, tive aquela leve preguiça de ir até o centro da cidade só para assistir primores como documentários colombianos e mexicanos, mas no fim das contas, felizmente, me surpreendi. Não pela qualidade do que assisti, mas pelo fato de que, volta e meia, acredito que é importante mesmo, para mim, assistir ao que os caras tão fazendo lá fora e que não tem tanta repercussão aqui dentro. Temos, sim, mais similaridades com nossos hermanos do que pensamos. Porém, apesar de ter assistido muita coisa dos nossos vizinhos aqui da América Latina, talvez o filme que mais tenha me agradado tenha sido um brasileiríssimo.
“Abaixando a Máquina – Ética e Dor no Fotojornalismo Carioca” é um documentário brasileiro de 2007 que joga os holofotes em um assunto que, embora passe pelas vidas dos cidadãos que abrem os jornais todos os dias, raramente torna-se foco de questionamentos: a vida dos fotógrafos que vivem de fotografar as cenas mais grotescas da realidade carioca, como a guerra do tráfico, a fome, a pobreza, e até mesmo enterros de totais desconhecidos, que vêm a ser as vítimas dessas calamidades.
Durante quatro meses, o diretor Guilhermo Planel e sua equipe entrevistaram um time de especialistas no assunto: os maiores fotógrafos dos maiores jornais do Rio de Janeiro, nomes como Alcyr Cavalcanti, Alaor Filho, Alex Ferro, Alexandre Brum, André Teixeira, Berg Silva, Carlo Wrede, Custódio Coimbra, Daniel Ramalho, Domingos Peixoto, Estefan Radovicz, Evandro Teixeira, Flávio Damm, Gabriel de Paiva, Ignácio Ferreira, Ivo Gonzalez, João Laet, Luis Alvarenga, Luis Morier, Marcelo Carnaval, Marcelo Franco, Marcia Folleto, Marcos Tristão, Michel Filho, Nilton Caludino, Orlando Abrunhosa, Patrícia Santos, Severino Silva, Uanderson Fernandes e Wilton Jr. Além de entrevista-los, a equipe acompanhou alguns deles em seus dias de trabalho, inclusive colocando-se no meio do fogo cruzado de um tiroteio entre traficantes e policiais, o que não só confere ao filme um caráter realista, mas promove uma sensação de tensão no espectador ao assistir as imagens confusas, misturadas aos sons de tiros e gritos, o que tira de tal situação o status da “realidade próxima” que não está tão próxima assim, uma vez que só participamos dela lendo os jornais, e nos insere dentro da mesma, causando um desconforto, e até um medo em relação ao que pode estar por vir.
Fazendo jus ao gênero, “Abaixando a Câmera” se constitui de entrevistas e depoimentos, misturados às próprias fotos da dura realidade a qual o filme retrata. A luz utilizada é primordialmente natural, sem grandes efeitos, e as imagens do dia-a-dia dos fotógrafos são filmadas com a câmera na mão, sem preocupações estéticas mais elaboradas. O filme é eficaz quando se propõe a emocionar o espectador, ao colher depoimentos igualmente emocionados dos próprios fotógrafos e ao chamar atenção para o fato de que por trás das lentes da objetiva há um ser humano que também sofre e sente com as situações, e que precisa se dividir muitas vezes entre ajudar o fotografado vítima da crueldade, papel do cidadão de bem, e exercer seu trabalho e fotografar a crueldade, papel do jornalista. Os pré-julgamentos que porventura podem vir a surgir, como o argumento de que os jornais estão mais interessados em vender a realidade cruel do que ajudar a consertá-la também são postos em tela. Deixando os princípios capitalistas imutáveis de lado, os próprios profissionais fazem questão de deixar claro que o maior intuito individual de cada um deles (o que inclusive é, também, um impulso para eles continuarem fazendo o que fazem) é ajudar a mudar a realidade, uma ajuda que pode vir ou não a partir do momento em que estampa-se o absurdo que se passa em lugares como a Baixada Fluminense nas primeiras capas dos jornais, valendo-se menos do sensacionalismo e mais do sentimento de revolta. Infelizmente, porém, a população num geral está tão acostumada com tais manchetes que não mais se comovem, pelo menos não a nível de querer fazer algo, com elas. Uma vez que um documentário, por mais imparcial que se proponha a ser tem, como qualquer arte, um toque do seu realizador ao fundo e, por isso, jamais conseguirá ser totalmente imparcial, percebe-se que o filme apóia essa idéia de que os profissionais do fotojornalismo não vendem a crueldade, beneficiando-se dela, mas procuram, a seu modo, mudá-la, principalmente ao colher depoimentos também de psicanalistas, como uma doutora que afirma que “O obsceno está na realidade, não na foto.”.
Assim, tomamos contato, senão pela primeira, por uma das primeiras vezes, com os seres humanos que existem por trás de cada foto. Seres humanos que deixam suas famílias todos os dias para enfrentar as piores e mais perigosas cenas, e o filme também apela para esse lado clichê e sentimental, ao retratar os fotógrafos com suas imagens de São Jorge no bolso e outros amuletos de proteção. Ainda assim, seres humanos que se arriscam como kamikazis em prol de um clique perfeito, mas que não deixam de se questionar. E as mesmas questões que eles possuem são as que “Abaixando a Câmera” nos deixa: Qual a capacidade que essas fotos possuem de nos comover? Será que a quantidade de sangue derramado e fotografado é diretamente proporcional ao choque no leitor? Qual é o limiar entre o exibicionismo e o “lucrar com a desgraça” alheia e a tarefa da exaustiva tentativa de alertar o povo, com a melhor das intenções? Afinal, qual é o momento de “abaixar a câmera”, ou seja, aquele momento em que todo e qualquer profissionalismo precisa sucumbir e dar espaço à ética, ao respeito e à cidadania. Pessoalmente, saí do cinema com essas e várias outras questões que até hoje não foram respondidas na minha cabeça, e realmente acredito que o filme se propôs menos a achar respostas e mais a implantar perguntas. O que é certo é que entendemos que a profissão do jornalista, uma vez que maneja a realidade ao escolher qual cena retratar, qual ângulo escolher, qual lente usar, ou seja, qual viés da informação passar para a sociedade num geral é tão importante que chega a ser perigosa. Por fim, a certeza com a qual saímos é a que um toque é igualmente crucial se dado em um botão de máquina fotográfica ou em um gatilho. As conseqüências é que, preferencialmente, serão distintas.
ps: Os trabalhos de fim de semestre continuam. Não, ainda não estou de férias. Damn it.