
Recorramos a metáforas: Temos um elástico. Daqueles que prendem papel. Agora pegamos o elástico com as duas mãos, e começamos a alongá-lo, devagar. Passamos, então, a puxar um pouco mais. E mais. Olhamos com desconfiança, afinal, uma hora aquilo vai ter que parar. Vai ter que chegar ao máximo possível. Esticamos o elástico até seu limite físico. Não dá mais. Então, soltamos o elástico de uma das mãos. Ele, rapidamente, se encolhe e estala na outra mão, que continuava a segurá-lo. Dói. Arde. E pensamos: que idéia idiota! Será que não poderíamos adivinhar que ia doer assim? Pra que brincar dessa forma com esse elástico? É lógico que ia dar errado.
Agora imaginemos esse elástico dentro de nós. Nossas emoções, por assim dizer. E esticamos nossas emoções ao máximo. Podemos até pensar, enquanto o fazemos, que isso não pode acabar bem. Uma hora esse elástico vai estourar, ou vai voltar com tudo pra cima de nós. Mas continuamos a esticar nossas emoções o máximo possível, enquanto pudermos. Porém, há algum tipo de equilíbrio perfeito no universo, e uma hora nossas emoções, por mais elásticas que sejam, vão estourar. E vai doer, vai arder por dentro, e vamos nos perguntar por que alongamos tanto aquele sentimento, por que fomos até o nosso limite. Enquanto dói, é difícil uma resposta aceitável. É quase irritante o argumento de que aprendemos com a dor. Quem quer aprendizado, quando o coração está sangrando? Por que temos que passar por tanta coisa? Que aprendizado é esse que nos levaria, supostamente, a algum tipo de conhecimento superior? Afinal, precisamos mesmo não ouvir de volta a declaração de amor feita do fundo do coração para saber que o outro não nos ama? Será que não podemos perceber isso com alguns gestos, e precisamos chegar a situações quase humilhantes para aprendermos? Será que precisamos ver o ser amado acompanhado por outrem, trocando carinhos e promessas, para entendermos que não somos desejados? Precisamos sofrer nas mãos de alguém para descobrirmos que algumas pessoas, simplesmente, não se importam?
Perguntas, perguntas... Tantas indagações carentes de respostas, mas que se resumem, todas, a um único intuito: ao sabê-las, afastaríamos a dor. Evitaríamos a ardência, a mágoa, a desventura.
A dor, porém, é necessária. Ela é humana, faz parte de nossa constituição tanto quanto água ou carbono. A dor é um alerta que nos avisa que há algo errado, pois o normal é não doer. Logo, se o amor dói, ele está errado. Amor não é pra doer. A dor é, também, um indício de que sentimos alguma coisa. Não estamos – ainda – anestesiados, inertes, imóveis diante de tanto sofrimento, de tantos corações partidos que encontramos por aí. Será que, para reconhecermos o amor que não dói, precisamos, necessariamente, passar por aquele que machuca? Será preciso a total entrega, a abnegada doação, a generosa oferta de nós mesmos a um nada sem valor para, só depois, só quando a tristeza e a raiva arderem dentro de nós, descobrirmos que é preciso mais maturidade, seleção, paciência? Será preciso esticar o elástico ao máximo para saber que ele vai nos ferir quando chegar ao seu limite?
Depois que o elástico nos machuca, depois que dói, descobrimos que, em algum momento, vai parar de doer. A ferida vai cicatrizar, o sofrimento vai ter um fim. Talvez fique uma cicatriz, mas esta, também, vai deixar de doer. E não viveremos com a impressão de jamais saber como seria esticar aquele elástico, fazer aquela declaração. Não conviveremos com a dúvida da retribuição do carinho, sem saber o que acontece quando distendemos nossos sentimentos até seus limites físicos e extra-corpóreos. Não há nada de errado em doer. O errado é a persistência da dor. E ela só vai persistir se a alimentarmos, se não cuidarmos dela. Assim aprendemos, também, a fazer a dor passar. Porque dói menos tentar fazer parar de doer. Dói mais, muito mais, não saber.