segunda-feira, 19 de julho de 2010

Quase-Manifesto.

Há muitos anos as mulheres lutam pelos seus direitos, e vêm conseguindo inegáveis avanços. Para que, hoje, possamos votar, trabalhar e usar calças jeans, muito sutiã teve que ser queimado em praça pública. Hoje, no auge de nossas independências, somos diretoras de grandes empresas multinacionais, engenheiras renomadas, grandes cirurgiãs, artistas, e ainda somos mães, esposas e, é claro, estamos sempre belas, depiladas e com os cabelos hidratados. Somos as donas das nossas próprias quitandas, pagamos nossas contas de luz e do salão de beleza. Não temos que dar satisfações a ninguem, somos inteligentes, cultas, e ainda sabemos escolher a cor do esmalte. Sim, somos as tais. Somos o que há de contemporâneo, de avançado, super heroínas do dia a dia que se desdobram em mil para atender às nossas próprias exîgências, e as da sociedade. Ninguem quer, afinal, menosprezar tanta luta, tanto sacrifício, tanto tempo querendo provar que podemos ser o que bem entendermos. Sou mulher. Se quiser sair, eu saio; coloco um salto alto, um decotão e vou pra balada, ninguem pode comigo. Se quiser ficar em casa, de moletom assistindo TV com meu cachorro, eu fico tambem, ninguem tem nada com isso. Posso, inclusive, me dar o luxo de comer uma caixa inteira de trufas de chocolate assistindo um filme, porque depois quem vai pagar a conta do spa sou eu. E isso SE eu quiser ir pro spa, porque se eu bem entender que quero uma bunda cheia de celulite, parecendo mais um queijo suíço, também é problema meu. Não preciso de nenhum homem pra me dizer como devo ou não devo ser.

Ah, sim. Os homens. Eles existem, ainda, em nossas vidas. Mas hoje temos uma relação diferente com eles. Eles não são mais nossos donos, senhores de nosso destino. Alguns são nossos brinquedinhos, nossos play grounds. Sexo casual, one night stand, e daí? O problema é meu, muita mulher lá atrás teve que provar sua sexualidade para que, hoje, eu possa fazer da minha o que eu bem entender. Aliás, se eu quiser perpetuar a minha espécie e fazer uma miniatura de mim mesma, nem preciso me relacionar com um homem. Posso ir a um banco de esperma, pagar uma quantia que, sim, é cara, mas o dinheiro é meu, e pronto. Em nove meses, serei mais uma adepta da maternidade, sem precisar passar por toda aquela chatice encontros e relacionamentos. Somos tão donas de nossos narizes bem cuidados com seções de limpeza de pele mensais que podemos, inclusive, optar pelo caminho contrário. Se quisermos ser donas de casa que cozinham para seus maridinhos, mães superprotetoras que correm do supermercado para o colégio dos filhos para o balé da filha para o futebol do filho para o inglês das crianças e...ufa! Ainda tem que ir no banco pagar as contas. E controlar as despesas de casa. E garantir a harmonia do lar. E ter certeza de que os filhos estão sendo bem educados e o marido está feliz. Não é mole não.

Somos as rainhas da cocada preta. E sabe o que é triste? Na grande maioria das vezes, isso é somente aos nossos olhos. Valorizamos cada conquista, cada meio centímetro percorrido a caminho da independência porque ela é nossa. Mas para os homens, para muitos deles, ainda somos, somente, mulheres. Seres difíceis de se entender. Ferozes quando estão na TPM, essa época do mês que eles, simplesmente, não entendem o caos interno que os hormônios enlouquecidos provocam. Se optamos por cuidar da casa, somos submissas e temos que responder a eles. Se colocamos a carreira em primeiro lugar, somos frígidas sem coração. Eles podem priorizar a carreira. É coisa de macho ganhar dinheiro. Nós não. Se damos no primeiro encontro, somos fáceis demais, indignas de uma ligação no dia seguinte. Se nos resguardamos, estamos nos fazendo de difíceis. Sexo é coisa de macho. Mulher não goza. Se queremos curtir a vida sem compromissos, somos vadias sem noção que só pensam em baladas. Se queremos namorar, somos neuróticas que só pensam em casamento. Temos que lembrar de tomar a pílula anticoncepcional todos os dias, religiosamente no mesmo horário. Afinal, se ficarmos grávidas numa relação casual, a culpa é nossa, que não nos cuidamos, que queremos dar o golpe da barriga. Somos aquelas que geram a vida, que dão à luz, que fazem crescer um outro ser. Mas isso não é mágico, não é bonito. Isso é obrigação. Mulher que não é mãe não é uma mulher completa. Ainda apanhamos, é verdade. Literalmente ou não. Muitas de nós morrem todos os dias, fruto da violência doméstica, da mão pesada daquele parceiro que escolhemos para amar. Morremos tambem de pouquinho em pouquinho com agressões verbais, descasos, desinteresses. Não é mole, não.

Quem por nós? Nós mesmas. Quem contra nós? Todo resto. Feminismo já é chato, vitimização mais ainda. Sutiãs não precisam mais ser queimados. A sexualidade não precisa mais ser conquistada. Os direitos a trabalhar e a votar, tambem não. Isso tudo já foi alcançado. Acima de tudo, conquistamos o livre-arbítrio. Escolhemos nossas escolhas. Pelo que lutar agora?

Lutemos pela dignidade reconquistada. Pela coragem de nos queixarmos dos maus tratos. Pelo fim do massacre do que nos resta de mais precioso: nosso feminino, nosso lado fêmea que quer gritar, que quer justiça para aquelas de nós que perdem a vida em represas, em sítios, em qualquer esquina desse país. Quanto tempo mais ficaremos esperando? Não proponho feminismo. Não proponho nenhum tipo de superioridade. Proponho denúncia, atenção e ajuda mútua. Igualdade. Gênero é muito mais do que sexo. É atitude.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Vamos falar de amor?


Hoje completam 30 anos que ficamos sem Vinicius de Moraes. Sem suas letras, sem sua delicadeza. Em tempos de guerras, de psicopatas, de tanta feiura como a que vivemos, as palavras de Vinícius são como uma respiração aliviada de quem há tanto sentia-se sufocado. Precisamos disso, como do próprio ar. Permitam-se breves momentos de beleza, caros leitores, e fujam um pouco de toda a loucura do mundo.

Tomara
Que você volte depressa
Que você não se despeça
Nunca mais do meu carinho
E chore, se arrependa
E pense muito
Que é melhor se sofrer junto
Que viver feliz sozinho

Tomara
Que a tristeza te convença
Que a saudade não compensa
E que a ausência não dá paz
E o verdadeiro amor de quem se ama
Tece a mesma antiga trama
Que não se desfaz

E a coisa mais divina
Que há no mundo
É viver cada segundo
Como nunca mais...

A polêmica da palavra.



A palavra tem poder. Esse clichê todos conhecem, e poucos discordam. O povo não perde tempo, e inebriado pelo frenesi da queda de mais um gigante, o mesmo que o próprio povo colocou num altar, chamou de melhor do Brasil. O mesmo que antes chamavam de "campeão", agora chamam de "assassino". Eu chamaria de "burro", mas tudo bem. E o povo, não acostumado a barbáries mesmo quando essas são estampadas quase diariamente nos jornais, se manifesta. É este o único assunto em mesas de bares, filas de supermercado, na televisão, no twitter. E, aparentemente, no muro da casa onde a carnificina foi executada, lá nas Gerais. Ainda que com erro de português, eles têm o que dizer. Vox Populi, Vox Dei. Ao que tudo indica.

Ainda sobre palavras: e a Lindsey Lohan que deu uma declaração dizendo que o "Fuck You" em suas unhas nada mais era do que montagem computadorizada de algum fotógrafo mal intencionado. E eu que até tinha achado ela ousada...Que decepção.

ps: voltei com os "Comentários" aqui no blog. Que eu não me arrependa.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Limites.



Não vou comentar sobre o caso Eliza Samudio aqui. Por motivos vários: a imprensa em geral já está amplamente noticiando o caso, não precisa ser este mais um meio de informação. Mas principalmente porque a meia dúzia de pessoas que lêem esse blog já perceberam que, aqui, todo e qualquer assunto engrena pro lado do humor. E sobre certas tragédias não se pode fazer humor. Nem o melhor dos humoristas conseguiria nesse caso. Arquitetar para matar uma pessoa, seja ela quem for (é um pouco pior quando se tem um filho com esta pessoa, mas vá lá.), mandar matar, esquartejar, desossar, dar a carne para cachorros comerem...É de uma crueldade tamanha que, simplesmente, não há muito mais o que dizer. Palavras faltam, pois mais uma vez o limite da maldade humana foi ultrapassado. Durante um tempo, achamos que ninguem poderia ser mais cruel que Suzane von Richtoffen. Daí veio o casal Nardoni, e nos desmentiu. Quebramos a cara mais uma vez. Há limites para a piada. O caso de Eliza Samúdio não tem graça.

Mas como a bruxa está solta no mundo das celebridades, graça tem o caso Lindsey Lohan. A garotinha de Garotas Malvadas, que ficou muito mais famosa por causa dos seus problemas com a lei, finalmente foi presa. Depois de ser detida por dirigir alcoolizada, perder a carteira de motorista, ser obrigada a andar com uma tornozeleira rastreada pela polícia e, finalmente, ser proibida de ingerir qualquer gota de alcool, ela não conseguiu. Mas não condenemos a pobre coitada, ela tinha compromissos. Quem aqui nunca teve que faltar um julgamento para curtir o Festival de Cannes que atire a primeira pedra! O que ela poderia fazer, se algumas festas são regadas a alcool e drogas? E daí que ela tirou uma foto ao lado de uma carreira de cocaína? Esse pessoal não entende nada mesmo...

Mrs Lohan violou a condicional, e desta vez não teve segunda chance. Mas não se fez de rogada, e apareceu por lá com a inscrição "Fuck You" em uma das unhas. Vai virar tendência na moda, isso é fato. E é triste. No mundo em que vivemos, ou tiramos sarro de tragédias, ou ficamos obcecados com barbaridades, ou devoramos histórias de assassinos modernos que arquitetam crimes muito além da nossa compreensão ou da criatividade de qualquer novelista, ou seguimos o exemplo de celebridades que são famosas simplesmente por serem famosas, e não porque têm, efetivamente, algo a oferecer. Consumimos essas informações sem o menor filtro moral. Mais do que nos informarmos, temos sede de desgraça. Na vida dos outros, é claro. A culpa é nossa, que não damos limites ao que consumimos e ao que valorizamos. A culpa é nossa, por não termos limites.

domingo, 4 de julho de 2010



No seu programa de hoje, Faustão criticou o presidente da CBF, por colocar uma pessoa "totalmente sem experiência" no comando da Seleção Brasileira de Futebol. Até aí tudo bem. Se Dunga nunca nem mesmo treinou a seleção junior do bairro dele, segurar a seleção é pesado. É aquele cara que aprendeu a nadar ontem e, hoje, já achou tinha cacife pra enfrentar o mar. Mas o ponto alto da crítica foi quando Faustão chamou Dunga de arrogante, dizendo que esta é a arma dos incompetentes e inseguros. Mais um acerto pro dono das tardes de domingo que, dado seu figurino, pode-se dizer que ele é, seguramente, o rei da confiança.

O bom filho à casa torna.



Woody Allen é daqueles cineastas que foram picados pelo bichinho que, pessoalmente, gosto de chamar de "stick to it". No caso de Allen, o bichinho é a cidade de Nova York. Desde o início de sua carreira, ambientou seus dilemas, conflitos sociais, surtos hipocondríacos e descrenças na cidade que nunca dorme, camuflados em personagens que não são muito mais do que o próprio cineasta, e a vida que ele gostaria de ter. Não que Nova York não seja suficientemente inspiradora. Aliás, é um dos poucos cenários no mundo que não cansam. Entretanto, o mais do mesmo cansa. Ainda que esse "mesmo" seja genial.

Decidido a tirar férias da sua América, Woody Allen foi pra Europa e revitalizou sua carreira. Fez dois filmes excelentes, dos melhores de sua vasta carreira. Match Point, em Londres, e Vicky Cristina Barcelona, na cidade-título, este último absolutamente fantástico, impecável, e que rendeu o Oscar à estupenda Penelope Cruz. Mas Allen sentiu saudades de casa, da selva de concreto onde os sonhos são feitos, e com "Tudo Pode Dar Certo" (Whatever Works, de Woody Allen, EUA 2009), voltou às suas origens.

O forte dos filmes de Woody sempre foram os diálogos, e neste caso não é diferente. Ele continua cáustico, hipocondríaco, sarcástico, pouco gentil, descrente, despretencioso e metido a inteligente, sendo que desta vez teve a relevante sacada de não se colocar como personagem principal. É bastante óbvio que o protagonista, Boris, é a personificação do cineasta na tela, mas ao que tudo indica, ele percebeu que não é um bom ator muito além dele mesmo, e escalou o célebre Larry David para viver o Woody da vez. Como sua direção continua não sendo das mais criativas, ele compensa no trato com os atores, que novamente parecem naturais e deliciosamente problemáticos, com uma boa performance especialmente de Evan Rachel Wood. Ela mesma, a menininha de "Aos Treze".

Se a direção de atores e os inteligentes e ágeis diálogos já são marcas registradas de Woody Allen, em Whatever Works ele resolveu inovar em sua própria estética e usar o recurso da "quebra da quarta parede", no jargão audiovisual, quando o ator fala com a câmera. Larry David "dialoga" com os espectadores, até mesmo quando os amigos fictícios estranham. "Com quem você está falando, Boris?", eles perguntam. "Com eles, esse monte de gente que está nos assistindo.". "Não tem ninguem nos assistindo!". Então, Larry vira, mais uma vez, para a câmera e estabelece uma compreensão com aquele cara lá da última fileira que se perpetua por todo o filme. Só ele, personagem fílmico, entende que há uma platéia ali, disposta a ouvir uma estória. É um segredo nosso, do público com Boris. Tido como "gênio" no filme, assim ele se estabelece ao demonstrar que entende mais da vida do que os demais personagens, inclusive enxergando o fato de que há espectadores logo ali. É a metonímia do próprio cineasta que, embora constantemente perspicaz, sempre acredita ter um entendimento cinematográfico muito maior do que as meras cabecinhas artísticas da culturalmente vazia América do Norte.


(Tudo Pode Dar Certo está nos cinemas no Rio de Janeiro)

sábado, 3 de julho de 2010

Adios, hermanos!

Senhores, eis imagens marcantes dos últimos dois dias na Copa da Fifa:





Verdade seja dita: ver a Argentina perder é bom. Vê-la ser humilhada é ainda melhor. Não só é possível, como bem provável que tais sentimentos se dêem por alguma forma de recalque brasileira.Imaturidade, bobagem, eu sei. Mas no futebol, eles são mais do que adversários. São inimigos. E a recíproca é verdadeira. As capas dos jornais dos hermanos de hoje estampavam fotos do Kaka aos prantos no fim do jogo de ontem, que nos rendeu uma sofrida eliminação. Dói ainda. E como dói... Mas dói menos vendo Don Diego caindo de 4, perdendo-se nos dribles germânicos, vendo seu queridinho Messi, com seu cabelo em corte cuia e sua altura modesta, correndo no campo como um menininho que se perdeu da mamãe no shopping. Tanto ele como nosso querido técnico tiveram que engolir suas petulâncias caladinhos, caladinhos... É, Maradonna... parece que nos livramos de vê-lo peladão por aí. Voltem para casa no ritmo do tango. E podem até pegar uma carona, nosso avião deve estar saindo daqui a pouco. Mas voltem calados, em sinal de respeito, por favor. Porque, até para perder, nós somos muito melhores.