segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

"Desculpe, senhores. Mas não há filme algum."


Odeio odiar musicais. Algumas das mais deliciosas lembranças da minha infância envolvem longas e longas horas, assistindo repetidas vezes a clássicos como Mary Poppins, Singing in the Rain e The Sound of Music, que preenchiam meus sonhos infantis com beleza, candura, esperança. O período de burra escassez de muscais em Hollywood depois do fim da Era de Ouro contou com nomes como Rob Marshall e Baz Luhrmann para que seu fim fosse anunciado, quando corajosamente esses dois diretores entraram nos projetos Chicago e Moulin Rouge, ambos bem sucedidos criticamente e presenteados com prêmios da Academia. Até mesmo o multi-talentoso Kenny Ortega, com seus High School Musicals, teve um papel fundamental em introduzir a cultura dos musicais nas novas gerações.

Assim, estava muito empolgada e ansiosa para ver Nine, o novo musical de Rob Marshall. Com um elenco de estrelas como Nicole Kidman, Penelope Cruz, Sophia Loren, Judi Dench, Kate Hudson, Fergie, Marion Cotillard, e o absurdamente genial Daniel Day-Lewis no papel principal, Nine tinha tudo para ser um estouro. Visualmente impecável, bela fotografia, ótimas atuações, e uma trilha sonora que faz com que seja impossível você não sair do cinema cantando "Be italian" ou "Cinema Italiano", extasiado com a beleza visual desses números, que pulam da grande tela e espancam seus olhos e sentidos, fazendo você querer mais. Além disso, a história de um famoso diretor de cinema italiano, Guido Contini (Day-Lewis), que ao se ver no meio de uma crise de inspiração a dez dias do início de seu mais novo projeto, passa a ser atormentado pelas presenças femininas marcantes em sua vida enquanto tenta escrever uma história, é baseada no filme Fellini 8 1/2, do grandioso Federico Fellini, de 1963. Marion é sua enganada esposa. Penelope é sua quente amante. Sophia (como sempre, preenchendo a tela com toda sua grandeza), é sua falecida mãe. Judi, sua fiel figurinista. Kate, uma impetuosa jornalista de moda. Fergie, uma prostituta que atormentava sua mente quando era menino. E Nicole, sua atriz preferida, sua musa inspiradora. O que poderia, então, dar de errado, em um enredo tão irresistível?

Exatamente aí está o problema. O enredo irresistível está no fato de falarmos sobre ele. Tudo bem que, dizem as mais línguas, 8 1/2 não tinha roteiro. Mas não era de forma gratuita. Existia um motivo conceitual para que isso ocorresse, coerente com a época do filme, a escola à que ele pertencia, e ao próprio diretor. Não é o caso em Nine. Não é possível fazer uma superprodução hollywoodiana sem roteiro. Simplesmente é incabível. E, tirando os números musicais, Nine se resume a uma narrativa arrastada, sem um começo, meio e fim, totalmente descolado do que ele se propunha a ser: um musical de Hollywood. Um musical dirigido por Rob Marshall, o aclamado "novo Bob Fosse". Um musical com alguns dos maiores nomes do cinema atual. A "falta de história", a carência de narrativa sólida, e a simples jornada inssossa de um diretor por um período de seca criativa daria certo em um cinema alternativo. Não consigo, simplesmente, entender por que, volta e meia, algumas pessoas ainda insistem em tentar realizar feitos que, evidentemente, não vão funcionar. Não são passíveis de bons resultados com uma platéia que não espera essas inovações. O que resulta em um espetáculo visual bonito, porém vazio. Um filme que se apóia muito simplesmente em dois ou três números musicais, e em seus grandes nomes, para que alguem prestasse alguma atenção nele. Não é a toa que Nine não conquistou, da maneira esperada, público e crítica. É uma pena, realmente, mas a frase do título desse texto, uma das falas de Guido, é ironicamente resumitiva. Nine não preencheu meus sonhos. Nine me deu sono.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Globo da Solidariedade.


No último domingo, em Los Angeles, aconteceu a edição 2010 dos Golden Globe Awards, conhecido popularmente como uma prévia do Oscar, e vulgarmente por ser o "segundo prêmio mais importante". De qualquer forma, a festa de premiação oferecida pelos membros da Hollywood Foreign Press, que premia os melhores do ano da TV e no Cinema americanos aconteceu, pela primeira vez na história, debaixo de chuva. Os mais superticiosos, ou aqueles que levantam a bandeira "fora yankee", poderiam até mesmo dizer que o acontecimento foi algum tipo de castigo cósmico, uma vez que uma festa de glamour e riqueza como esta, televisionada para o mundo inteiro, esfregando toda a superioridade do Olimpo americano na cara dos meros mortais, seria quase uma afronta, frente aos recentes acontecimentos do Haiti. Bobagem pura. Em momentos de catástrofes como este, fingir que simplesmente não existe gente rica no mundo é tapar o sol com a peneira.
Ver aquelas celebridades intocáveis se enrolarem com guarda chuvas, tentarem não ensopar as barras de seus belos vestidos ao caminharem pelo tapete vermelho, temerem que o penteado caísse com toda aquela umidade, foi até engraçado de ver. A gente realiza que eles nem são tão intocáveis assim. Mas bonito mesmo foi ver gente como George Clooney, Penelope Cruz e Morgan Freeman usarem os holofotes para causas que importam. Mais do que o broche vermelho solidário às vítimas do Haiti, eles divulgaram campanhas de arrecadação de doações para o país. Clooney inclusive está organizando uma espécie de teleton para a próxima sexta, no qual artistas atenderão os telefones, recebendo as doações, enquanto cerca de 17 emissoras televisionam o evento, com direito a shows de artistas do momento, para chamar mais público. Dizem que Madonna doou 250 mil dólares, e que Gisele Bundchen, embaixadora da ONU, doou 1,5 milhão. Durante toda a cerimônia, vários atores e atrizes chamavam atenção dos telespectadores para visitarem o site nbc.com , no qual encontram várias formas de ajudar.
E que continuem falando o que bem entenderem, aqueles que tem por esporte falar mal de gente famosa, rica e influente. Porque verdade seja dita: tem gente fazendo o dever de casa direitinho.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

É o fim de mais um dia tão quente no Rio de Janeiro que tenho minhas dúvidas se não seria possível, literalmente, fritar um ovo no asfalto. E cá estou, enfurnada no meu quarto, com o ar condicionado bem forte para que eu me engane e julgue estar na Sibéria, e o ócio me fez perambular por perfis de orkuts. Em um deles, me deparei com uma frase que já é até mesmo lugar comum em sites de relacionamentos e até mesmo cartõezinhos românticos. É aquela boa e velha citação de O Pequeno Príncipe: "Tu te tornas eternamente responsável pelo que tu cativas.". Sempre desconfiei um pouco dessa afirmação, e minha desconfiança nada tinha a ver com o fato de eu achar esse Pequeno Príncipe um garoto muito do pentelho que mora no topo de um planeta e não tem um tanque de roupa suja pra lavar, por isso pode ficar tendo devaneios idiotas. Mas o que me incomodava nesta frase, que tantas pessoas tomam como verdade incontestável, era o caráter irredutível dela. Como se o sedutor, ou aquele que cativa, não tivesse uma escolha, senão cativar. Isto não é de todo certo, como bem sabemos. Amores platônicos estão aí para comprovar isso, no sentido mais filosófico do termo. Muitas vezes somos cativados por pessoas que não necessariamente pediram por isso. Simplesmente nos apaixonamos, emburrecemos, trocamos as mãos pelos pés. Fantasiamos ilusões idílicas em nossas cabecinhas entorpecidas, criamos histórias nas quais vivemos em um conto de fadas com aquele ser amado, sem nem mesmo saber se o tal ser está a fim de embarcar nesse filme da Disney conosco. Que culpa têm, certas pessoas, de serem, simplesmente, irresistíveis? As vezes elas não precisaram fazer nada demais para nos cativar, apenas existir com suas belezas, sorrisos cativantes, olhares penetrantes que, muitas vezes, nem são para nós. E é aí que a afirmação de Antoine Saint-Exupéry mostra suas falhas. Nem sempre nos tornamos eternamente responsáveis pois, as vezes, não temos muito controle sob aqueles que cativamos. Podemos não fazer a menor questão de que alguem exista em nossa vida, mesmo quando o carisma foi de tal modo incontrolável que passamos a existir intensamente na vida desse alguem.

A coisa muda de figura quando, enfim, há um incentivo. Quando alguem nos cativa por livre e espontânea vontade, quando esse alguem insiste em nos ligar, nos inundar com palavras de carinho, fazer questão de estar presente - fisicamente ou não - em nossas vidas, aí sim esse alguem é inteiramente responsável por nos cativar. Ele quis isso, ele trabalhou para isso. Ele não foi encantador pela sua mera existência, mas escolheu deliberadamente nos encantar, usando todas as suas armas para isso. E como afirma outra passagem do livro (e com esta eu concordo), "a gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar...", sofremos um tanto quando o "sedutor" resolve pular fora. Por vezes ele faz essa escolha, e outras tantas ele simplesmente age como se nada tivesse jamais ocorrido. Como se fosse somente fantasia nossa, e não a colheita daquilo que ele plantou. É o que eu chamo de jogo sujo, de falta de caráter, e de sacanagem. O que nos resta? Chorar baldes, pintar a caveira, falar mal para os amigos, na tentativa de que aquilo se torne verdade para nós, se repetirmos com frequência.

O que consigo concluir é simples: é preciso ter cuidado com o que se cativa. É preciso saber bem aonde pisamos, o que dizemos e de que forma o fazemos, pois as vezes criamos feridas em outros corações que jamais serão cicatrizadas. Não se pode brincar com os sentimentos de alguem como se eles fossem um daqueles jogos de bolinhas que os equilibristas jogam para cima. É infinitamente mais difícil curar uma mágoa mal resolvida do que uma doença grave. Não há remédios para um coração partido.

Quanto àqueles que nos cativam, sempre fui partidária das paixões desenfreadas, de dar a cara a tapa e ver o que acontece. Continuo o sendo. É preciso, no entanto, prestar atenção se o objeto que nos cativa está, voluntariamente, o fazendo. Se não o está, aconselho terapia. Porém, se foi uma escolha dele criar esse vínculo, viva-o enquanto for possível. E torça para o melhor. Cative e se deixe ser cativado, pois a vida é feita disso, afinal. Mas lembre-se que "é preciso exigir de cada um o que cada um pode dar." Essa é outra citação de O Pequeno Príncipe. E é com ela que eu termino este post.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Primeiro de 2010

Feliz ano novo, queridos leitores deste inóspito blog. Gosto de pensar que vocês existem. Gosto mais ainda de falar assim no plural: vocêS.

Desculpem minha falha, não estou bem para escrever hoje. Estou tão irritada (e mais alguns adjetivos que cabem aqui: decepcionada, cansada, sacaneada, triste, exausta), que se eu escrevesse no calor do momento o que sinto agora, acabaria por falar besteira. Ou falar mais do que devia, algo tão comum para mim. Quando a poeira baixar, escreverei. Ou quando meu coração se acalmar, talvez.

De qualquer forma, achei que deveria dar sinal de vida aqui. 2010 já chegou absurdamente quente no Rio de Janeiro. Entre mergulhos no mar da praia da Barra e longas temporadas no ar-condicionado, comecei o ano fazendo algo que costumava dizer que não faria: um twitter. Ha-ha. Pois é. Twitteira. Aff... Estou cada vez mais perdendo minha dignidade. Mas sabe que é interessante esse negócio? Descobri que posso seguir a Demi Moore, o Ashton Kutcher, a Ellen de Generes e a Oprah.

Para os que se interessarem:
www.twitter.com/ca_pavanelli

Beijosmetwitta.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Último de 2009.

Todo fim de ano é a mesma velha história. Somos inundados, voluntaria ou involuntariamente, de mensagens e pensamentos otimistas, estrategicamente planejados para acreditarmos que tudo será melhor no ano que está por vir. Adeus ano velho! No ano que vem vai todo mundo parar de fumar, emagrecer, viajar mais, ser mais tolerante. Vai todo mundo terminar a faculdade, ter coragem para mudar de emprego, achar o amor da vida. Além, muito além das individuais resoluções egoístas, esperamos a paz para o mundo, o fim dos conflitos, o extermínio de tudo aquilo que nos faz mal. Sim, adeus ano velho! Já vai tarde! No fim do ano passado, tínhamos altas expectativas para você, 2009... mas agora seu tempo acabou. 2010 será muito melhor. O futuro sempre será muito melhor.

Todavia, quando fazíamos, com os corações cheios de esperança, nossos planos para esse ano que passou, ainda no fim do ano passado, ainda que tentássemos, não adivinharíamos as tantas coisas que ocorreram nesse atribulado ano. Diríamos que um brasileiro seria o homem mais rápido do mundo nas piscinas, quebrando recordes inimagináveis, como um furacão de talento, disciplina e vitórias? Diríamos que uma desconhecida, pelo simples fato de colocar um micro-vestido cor de rosa e desfilar por uma universidade (quase tão desconhecida quanto ela), viraria capa dos mais importantes jornais e revistas do país? E todas aquelas esperanças que depositamos, e foram por água abaixo... Diríamos que a convenção do clima não daria em nada? Diríamos que bandidos seriam capazes de derrubar helicópteros da polícia carioca? Diríamos que a natureza continuaria a responder de maneira feroz às mudanças climáticas, castigando São Paulo com chuvas que nunca terminam? Diríamos que, do nada, perderíamos ele... o rei do pop, o rei dos reis, o maior dos performers que este mundo já viu? Diríamos que Michael Jackson morreria, dias antes de começar sua última turnê? This is it para o homem que virou mito. Por fim, diríamos que Obama, aquele que veio lá debaixo, cresceu na vida, tem a família perfeita e, enfim, transformaria a América e salvaria o mundo, aquele mesmo Obama carismático e intelectualmente sedutor, enviaria 30 mil soldados a mais para o Afeganistão, pouco tempo depois de ganhar o Nobel da Paz?

Felizmente, 2009 foi mais do que um ano para ficarmos embasbacados com atrocidades. Nossa bandeira carrega os dizeres "Ordem e Progresso", e parece que, enfim, estamos conseguindo começar a fazer jus a essas palavras. Na capa do caderno especial do Jornal O Globo de hoje, vemos a foto de um menininho, morador de uma favela no Rio, brincando com dois policiais militares. Os três sorriam sem perceber que eram fotografados. São policiais de uma das várias Unidades de Polícia Pacificadora do Rio de Janeiro, que começou esse ano a encurralar o tráfico na Cidade e nos fazer ter algum orgulho de nossos protetores. As favelas da Zona Sul já foram tomadas pelos Pacificadores e, ingenuidades a parte, só podemos torcer para que, no ano que vem, todas as favelas do Rio de Janeiro recebam o mesmo tratamento especial. Ainda no mérito da Ordem, a Lei Seca veio com tudo em 2009, e os números não mentem: menos acidentes e mortes no trânsito. Gente de todas as raças, credos e, principalmente, posições sociais e condições financeiras estão perdendo a carteira de motorista se não dançarem conforme a música. Foi o ano da tolerância zero no trânsito, e do resgate à tão desgastada e utópica idéia da nossa dignidade.
O progresso tambem se fez presente. Nosso presidente Lula foi eleito o "homem do ano" pelo jornal francês Le Monde. Assinou alianças e ficou lado a lado com os mais ricos do mundo, liderando os emergentes da América Latina. E como poderíamos esquecer? Neste ano, o Rio de Janeiro foi eleita a cidade-sede das Olimpíadas de 2016, catapultando sua imagem para todo o planeta, pouco tempo depois de ter sido eleita a cidade mais feliz do mundo. A explosão de alegria nas areias de Copacabana, decorrente do anúncio do COI, mostrou que estamos dispostos a mostrar que somos muito, MUITO mais do que tráfico de drogas e estonteante beleza natural. Somos capazes de abrigar o evento mais importante do esporte mundial, e de nos impor frente àqueles que pensam tão pouco de nós.

Sim, foi um ano atribulado. E para mim, uma simples escritora que, mesmo contra a própria vontade, não se furta ao papel de espectadora do mundo de vez em quando, foi um ano de reflexão, e mãos a obra. Alguns sonhos foram realizados, outros apenas postergados...mas jamais esquecidos ou abandonados. Com eles aprendi que, muito mais do que clichê, é realmente verdade: TUDO é possível, basta ter fé e muita determinação. Nesse ano eu me apaixonei e me desencantei, em um processo mais longo do que deveria ter sido, e mais doloroso do que previa, mas que me fez entender que, não importa quantas vezes um coração é partido, ele sempre arruma um jeito de juntar os cacos, levantar a poeira e dar a volta por cima. Que quando amamos de verdade, perdoamos dos mais ínfimos aos mais graves erros de uma pessoa e, acima de tudo, que o simples fato de uma pessoa não nos amar da maneira que gostaríamos, isso não quer dizer que ela não goste da gente. Cabe a nós refletirmos se é assim que queremos ser tratados. Se não, bola pra frente. A vida simplesmente não pára para chorarmos ou nos lamentarmos.

Continuo cheia de expectativas para 2010. A beleza do futuro é a promessa de ele sempre ser melhor do que nossa vida atual. Que haja paz para minha amada cidade e para o mundo. Que os soldados americanos saiam do Afeganistão e voltem para suas casas e suas famílias. Que os líderes mundiais cheguem a um consenso útil e coerente sobre o destino do clima e do planeta. Que acreditemos na utopia de políticos honestos, e sejamos iluminados o suficiente para elegermos governantes capazes de fazer por nós tudo aquilo que esperamos deles. Que se acabem as histórias de dinheiro em cuecas, meias... que se exterminem as propinas e os mensalões. Que sejamos menos idiotas e mais raçudos, mais atuantes. E, por fim, que sejamos hexacampeões mundiais de futebol na Copa na África, para mostrar mesmo quem é que continua mandando aqui.

Um feliz ano novo para todos, repleto de saúde, alegrias e realizações. Que consigamos ter forças para sorrir mesmo nas mais improváveis situações, e que sejam muito poucas aquelas que nos fazem chorar.

Um beijo grande e até 2010,

Cá.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009


O post de hoje é breve. Pretende-se mais uma resposta do que uma crítica. Acontece que, na semana passada, o assunto mais falado por aqui foi o comentário do ator americano Robin Williams no programa Late Show with David Letterman, um dos mais populares do país, a respeito da escolha do Rio de Janeiro como sede das Olimpíadas de 2016. Williams complicou-se ao dizer que, embora Chicago tenha enviado Oprah Winfrey e Michelle Obama para apoiarem sua candidatura, perdeu para o Rio, que enviou "cinquenta strippers e meio quilo de pó.". Por isso, algumas pessoas vieram me perguntar como LOGO EU não havia escrito nada sobre isso, xingando Robin de todos os nomes afinal, quem esses americanos pensam que são? Ao contrário da revolta popular, fiquei momentaneamente indignada com o fato, mas depois relevei. Como um cidadão nascido em Chicago, é perfeitamente compreensível a dor de corno do ator, afinal, como pode uma cidade como Chicago perder para uma cidade como o Rio? Chicago é... aah, gente, Chicago! Quem não conhece os mundialmente famosos pontos turísticos de Chicago? Quem nunca citou Chicago como uma das cidades mais belas de todo o mundo? Quem nunca viu nenhum elogio ao povo de Chicago por ser caloroso e acolhedor? Que absurdo, realmente! Afinal, Chicago não tem violência, é o paraíso na Terra... EUA não têm gangues, tampouco traficantes... aquilo tudo que vemos em filme é mera ficção hollywoodiana.
Para analisar criticamente o comentário infeliz do ator, devemos dividi-lo em partes. Quanto às strippers, embora seja uma calúnia e o Brasil não as tenha enviado para a decisão do COI, me admira o fato de que nós, brasileiros, fiquemos tão revoltados com isso. Afinal, adoramos exaltar o nosso carnaval como a maior festa popular do mundo, uma festa onde as mulheres desfilam literalmente nuas, apenas com tinta cobrindo partes de seus corpos. E isso sem mencionar as praias brasileiras, principalmente as cariocas, das quais tanto nos orgulhamos, sempre abarrotadas de mulheres vestindo biquinis minúsculos e rebolando seus corpos bronzeados e morenos, num doce balanço a caminho do mar. Não fez a fama? Agora deita na cama! Já quanto ao meio quilo de pó, isso vou deixar mesmo por conta do Robin Williams, que já passou duas vezes por clínicas de reabilitação, em decorrência de seu vício em cocaína. Logo, acho que o ator deve ter, de fato, alguma autoridade para falar. Deve conhecer bem o pó brasileiro, em suas andanças por aí. O que talvez Williams não tenha realizado é que, ao tentar fazer pouco do Rio de Janeiro, acabou por diminuir simplesmente a mais influente mulher da televisão em todo o mundo e a primeira dama de seu próprio país, ao dizer que nem mulheres desse porte podem vencer strippers de terceiro mundo e "a pound of blow", em suas palavras.
Sou admiradora do trabalho de Robin Williams em seu viés dramático, como em Good Will Hunting e Dead Poets Society, por isso não posso entrar nesse mérito. A razão pela qual nada disse até agora é um pouco mais simples. Com senadores corruptos sendo descobertos em Brasília, com a Cúpula do Clima em Coppenhagen acontecendo e decidindo qual vai ser, literalmente, o futuro do nosso planeta - se teremos verões de 50º daqui a poucos anos, se os oceanos comerão as cidades costeiras, se tsunamis serão mais e mais frequentes - acho que tenho um pouco mais com o que me preocupar, do que com uma reles comentário banal de Robin Williams. Sim, acho que ele não o deveria ter feito, mas de uma pessoa que disse que "Cocaína é a maneira de Deus lhe dizer que você está muito rico", eu espero qualquer coisa.

domingo, 29 de novembro de 2009

Meryl com manteiga, com afeto.


"Julie & Julia" (Julie & Julia, de Nora Ephron, EUA 2009), é um filme perigoso. Daqueles em que já há uma pré-disposição a se gostar, antes mesmo de entrar no cinema. Há Meryl Streep... esplendorosa, incrivelmente versátil, enchendo a tela com um tipo raro de talento que é capaz de segurar o filme sozinho. Há uma história baseada em fatos reais, uma jornada de superação de uma mulher de classe média americana, insatisfeita com sua vida, incapaz de não deixar tarefas inacabadas, que encontra inspiração em um livro de receitas escrito por uma outra mulher anos antes, e passa a fazer daquilo um projeto de vida: 524 receitas em 365 dias, com todas as experiências devidamente registradas em um blog. Há as boas atuações de Stanley Tucci e Amy Adams. Há romance, dois casamentos praticamente perfeitos, que superam crises e esfregam na cara do mundo que este tipo de relacionamento é possível. E há, por fim, comida. Muita comida. Se você não entrar na sala de cinema de barriga cheia, certamente sairá com fome de lá.

Com tantos ingredientes cuidadosamente escolhidos para um efeito quase infalível no coração e no estômago do espectador, fica difícil entender por que Julie & Julia não é tão apaixonante assim. Nora Ephron começa bem, com uma montagem paralela que de cara nos faz entender que se trata de duas histórias distintas, que ocorreram em épocas diferentes, mas que de alguma forma se relacionam uma com a outra. Ambas começam em um processo de mudança - de bairro ou de país -, tanto Julie quanto Julia sentem-se insatisfeitas, infelizes com as vidas sem substância que vivem. Ao mesmo tempo em que, no presente, Julie encontra em Julia uma inspiração para sair da rotina de seu apartamentinho no Queens e seu trabalho insosso, Julia, em uma Paris da metade do século XX, encontra na culinária uma válvula de escape, um entusiasmo criador, uma maneira de juntar a paixão por comer com algo realmente animador e construtivo. É notável a boa construção do roteiro, ao intercalar as duas histórias. Mas parou por aí.

Interrompendo a espiral crescente de entusiasmo e graça que o filme proporcionava, ele começa a decair a partir das tentativas de Julie fazer uma lagosta. É quando, então, a película se afirma como uma cine-biografia, e os 123 minutos de duração parecem estender-se por quatro horas e meia. Talvez eu o tenha ido assistir em um horário ingrato, uma sessão de meia noite e quinze, mas continuo acreditando que um bom filme é aquele que nos deixa ligados do início ao fim, seja as três da tarde ou as três da manhã. Assim como Ephron foi feliz no início de seu roteiro, ela parece ter se perdido na metade para o final, não sabendo mais exatamente como intercalar aquelas duas histórias de forma que não se tornasse algo entediante. Cine-biografias são complicadas, isso é um fato, pois trata-se da vida de uma pessoa, que por mais incrível, inspiradora e fora dos padrões que seja, continua o dia-a-dia de alguem, e nem todos os dias, nem todos os anos, são tão interessantes assim. É o conjunto o que vale. Logo, somos arrastados mais de uma hora por todo o projeto de Julie com suas 524 receitas. E a odisséia para se desossar um pato acaba por deixar claro que isto não é, no fim das contas, tão emocionante assim.

O que fica é a boa e velha mensagem preferida de Hollywood: não desista dos seus sonhos, há sempre uma luz no fim do túnel, basta ter perseverança. É certo que a personagem de Amy tende mesmo a se deixar influenciar mais do que o normal pela personagem de Meryl, transformando-se em uma fã fanática, quase uma groupie enlouquecida. Mas é preciso dar um desconto, uma pausa na pré-implicância gratuita com produtos americanos mainstream e, por fim, nos deixar levar pela esperança, que no filme se impõe como uma certeza, de que podemos enxergar no outro uma razão e um motivo para seguirmos em frente, para darmos a cara a tapa, sem medo de errar. Pode ser um pouco exagerado dizer que o livro de Julia Child na vida real, "Mastering the Art of French Cooking", tenha realmente mudado o mundo, como o disse seu marido, Paul Child. Todavia, ele definitivamente mudou a de Julie Powell, autora do livro que deu origem ao filme, e é certo que tocou mais uma meia dúzia de almas por aí. Há pessoas que encontram a salvação na precisão e da delicadeza necessárias para o preparo de um prato mais sofisticado, o que nos faz perceber que esta salvação pode estar em qualquer lugar, escondida nos cantos mais improváveis das vidas mais monótonas. O que vale é que, de uma forma ou de outra, ela está sempre ali. E é esta a lição que deve ficar. Bon Appetit!