domingo, 29 de novembro de 2009

Meryl com manteiga, com afeto.


"Julie & Julia" (Julie & Julia, de Nora Ephron, EUA 2009), é um filme perigoso. Daqueles em que já há uma pré-disposição a se gostar, antes mesmo de entrar no cinema. Há Meryl Streep... esplendorosa, incrivelmente versátil, enchendo a tela com um tipo raro de talento que é capaz de segurar o filme sozinho. Há uma história baseada em fatos reais, uma jornada de superação de uma mulher de classe média americana, insatisfeita com sua vida, incapaz de não deixar tarefas inacabadas, que encontra inspiração em um livro de receitas escrito por uma outra mulher anos antes, e passa a fazer daquilo um projeto de vida: 524 receitas em 365 dias, com todas as experiências devidamente registradas em um blog. Há as boas atuações de Stanley Tucci e Amy Adams. Há romance, dois casamentos praticamente perfeitos, que superam crises e esfregam na cara do mundo que este tipo de relacionamento é possível. E há, por fim, comida. Muita comida. Se você não entrar na sala de cinema de barriga cheia, certamente sairá com fome de lá.

Com tantos ingredientes cuidadosamente escolhidos para um efeito quase infalível no coração e no estômago do espectador, fica difícil entender por que Julie & Julia não é tão apaixonante assim. Nora Ephron começa bem, com uma montagem paralela que de cara nos faz entender que se trata de duas histórias distintas, que ocorreram em épocas diferentes, mas que de alguma forma se relacionam uma com a outra. Ambas começam em um processo de mudança - de bairro ou de país -, tanto Julie quanto Julia sentem-se insatisfeitas, infelizes com as vidas sem substância que vivem. Ao mesmo tempo em que, no presente, Julie encontra em Julia uma inspiração para sair da rotina de seu apartamentinho no Queens e seu trabalho insosso, Julia, em uma Paris da metade do século XX, encontra na culinária uma válvula de escape, um entusiasmo criador, uma maneira de juntar a paixão por comer com algo realmente animador e construtivo. É notável a boa construção do roteiro, ao intercalar as duas histórias. Mas parou por aí.

Interrompendo a espiral crescente de entusiasmo e graça que o filme proporcionava, ele começa a decair a partir das tentativas de Julie fazer uma lagosta. É quando, então, a película se afirma como uma cine-biografia, e os 123 minutos de duração parecem estender-se por quatro horas e meia. Talvez eu o tenha ido assistir em um horário ingrato, uma sessão de meia noite e quinze, mas continuo acreditando que um bom filme é aquele que nos deixa ligados do início ao fim, seja as três da tarde ou as três da manhã. Assim como Ephron foi feliz no início de seu roteiro, ela parece ter se perdido na metade para o final, não sabendo mais exatamente como intercalar aquelas duas histórias de forma que não se tornasse algo entediante. Cine-biografias são complicadas, isso é um fato, pois trata-se da vida de uma pessoa, que por mais incrível, inspiradora e fora dos padrões que seja, continua o dia-a-dia de alguem, e nem todos os dias, nem todos os anos, são tão interessantes assim. É o conjunto o que vale. Logo, somos arrastados mais de uma hora por todo o projeto de Julie com suas 524 receitas. E a odisséia para se desossar um pato acaba por deixar claro que isto não é, no fim das contas, tão emocionante assim.

O que fica é a boa e velha mensagem preferida de Hollywood: não desista dos seus sonhos, há sempre uma luz no fim do túnel, basta ter perseverança. É certo que a personagem de Amy tende mesmo a se deixar influenciar mais do que o normal pela personagem de Meryl, transformando-se em uma fã fanática, quase uma groupie enlouquecida. Mas é preciso dar um desconto, uma pausa na pré-implicância gratuita com produtos americanos mainstream e, por fim, nos deixar levar pela esperança, que no filme se impõe como uma certeza, de que podemos enxergar no outro uma razão e um motivo para seguirmos em frente, para darmos a cara a tapa, sem medo de errar. Pode ser um pouco exagerado dizer que o livro de Julia Child na vida real, "Mastering the Art of French Cooking", tenha realmente mudado o mundo, como o disse seu marido, Paul Child. Todavia, ele definitivamente mudou a de Julie Powell, autora do livro que deu origem ao filme, e é certo que tocou mais uma meia dúzia de almas por aí. Há pessoas que encontram a salvação na precisão e da delicadeza necessárias para o preparo de um prato mais sofisticado, o que nos faz perceber que esta salvação pode estar em qualquer lugar, escondida nos cantos mais improváveis das vidas mais monótonas. O que vale é que, de uma forma ou de outra, ela está sempre ali. E é esta a lição que deve ficar. Bon Appetit!

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

A Faixa de Gaza é aqui.

O Rio de Janeiro continua lindo... continua sendo... aquele abraço pra galera de Realengo. Continua sendo a sede dos Jogos Olímpicos de 2016... continua com estonteantes praias... belas paisagens... quando Deus o desenhou, ele estava namorando. Sou sempre a primeira a defender a minha cidade, compro briga mesmo, e não me canso de exaltar essas tais belezes que, simplesmente ao olha-las, nos faz ter a mais plena certeza de que Deus existe. Mas uma foto no jornal O Globo desses dias me chocou: em algum lugar da Zona Norte da cidade, o corpo de um homem jazia dentro de um carrinho de supermercado, no meio da rua, enquanto transeuntes por ali passavam como se nada estivesse acontecendo. Olha, acontecendo estava... tinha um homem morto ali a menos de um metro deles. Isto já seria macabro o suficiente, mas o problema é maior do que a morte em si. O problema é que essas mortes se tornaram normais, e passamos por elas com a mesma naturalidade que passamos pelas belezas cariocas. O belo e o horroroso, o sublime e o medonho, o mágico e o real amargo convivem ali, lado a lado, todos os dias.

No último feriado estive em São Paulo, e durante uma conversa em uma mesa, um homem que havia acabado de conhecer me perguntou como estava o Rio. É sempre assim, quando eu saio daqui, e sempre respondo de bom grado, cheia de orgulho, o mais clichê "continua lindo...". Daí ele emendou com outra pergunta: "e a violência, como está?". Sempre achei uma sacanagem o que fazem com o Rio, pois fora daqui, tudo que se vende é que no Rio de Janeiro só há violência, que as pessoas andam amedrontadas na rua, que são assaltadas todos os dias e, principalmente, que balas perdidas acontecem em todos os bairros, em todos os momentos. Sempre fiquei bastante irritada com isso tudo, pois nunca me aconteceu nada aqui, diferente de outros lugares. Sempre enxerguei o Rio de Janeiro como o meu lugar, o local que me acolhe, onde eu me sinto em casa, onde eu me sinto melhor. Sempre, até dia desses.

A beleza é ofuscada quando, em dois dias, mais de vinte pessoas morrem em confrontos de traficantes de morros rivais, que conseguiram arquitetar, armar e executar uma verdadeira guerra civil em plena Cidade Maravilhosa. Mais do que me entristece, isso me revolta. Quanto mais teremos que esperar, quantas pessoas mais terão que morrer, quantos crimes hediondos a mais terão que acontecer para percebermos que essa situação já fugiu do controle dos cidadãos e das autoridades? Por falar nelas... onde estão as autoridades? Temos uma polícia corrupta, que compactua com esses mesmos bandidos, e um Governo Federal INCOMPETENTE que está mais interessado em fazer campanha política das obras de transposição do rio São Francisco quando, na verdade, era com outro Rio que deveria se preocupar. Não temos mais em quem confiar, a não ser em nós mesmos, e na esperteza de não frequentar tais lugares depois de certos horários, de saber por onde andar, e etc. Não que isso não aconteça em mais vários outros lugares, do Brasil inclusive. Não venham me dizer que é só no Rio! A diferença é que, ao contrário de outras cidades, em que as periferias são distantes dos grandes centros e, assim, a pobreza está distante dos olhos e do coração, no Rio de Janeiro ela está ali, dividindo espaço com os cartões postais. Está no menino que joga bolinhas no sinal, nas famílias de bem que moram em favelas, convivem com o medo diariamente cara a cara e perdem entes queridos e batalhas com as quais elas não tem nada a ver.

Este foi somente um desabafo, de quem já se cansou de não ver nada acontecer, de ter os próprios governantes - aqueles que eu, e você, ajudamos a colocar lá onde estão - e a parte corrupta da polícia ajudar a destruir uma cidade que, sem toda essa confusão seria, sim, perfeita. Porque a beleza é perfeita, o povo é perfeito, o clima é perfeito. Mas não dá mais pra conviver com a supremacia de bandidos que são muito mais organizados e competentes do que os orgãos responsáveis por nos proteger, e por acabar com eles. Não quero esperar até 2016 para ver o exército nas ruas garantindo a segurança dos Jogos e saber, com as mais absolutas convicção e certeza, de que posso andar livremente, por todo e qualquer lugar, em qualquer horário, sem que nada me aconteça.
O Rio de Janeiro só terá jeito quando cada um de nós, cidadãos que amam a cidade, enxergarem que nada disso é normal. Pode ser comum, infelizmente, mas não é normal. NÃO PODE ser normal.

Que a memória de Tim Lopes nunca se apague, assim como a das pessoas de bem que perderam suas vidas nos recentes conflitos em Vila Isabel.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Te amarei para sempre, ou até que você suma de novo.


Quem me conhece minimamente, ou pelo menos quem se dá ao trabalho de ler esse blog com alguma frequência, sabe que eu sou caidinha por Hollywood. Uma vergonha para os estudantes de Cinema do Brasil, eu sei! Porém, como não sou mais uma estudante, tampouco me formei em Cinema, e sim em Comunicação Social (embora tenha me habilitado em Cinema), posso me dar ao luxo de flertar com esse incrível e insosso cinema pipoca de massa sem correr o risco de ser enxotada para algum tipo de exílio intelectual virtual (não que eu, exatamente, me importasse com isso em outros tempos).

Mas não estou aqui para elogiar, não dessa vez. Uma das várias indiscutíveis facetas hollywoodianas é a capacidade de nos fazer debulhar em lágrimas com historinhas água-com-açucar. Pelo menos, comigo isso sempre acontece. Tem dias que me bate uma solidão tão profunda que eu sei que somente uma coisa em todo o mundo pode remediar a minha dor: o cinema. E lá que eu me abrigo, naquela sala escura, circundada por completos estranhos que não me vêem, não me enxergam, não se importam comigo. Escolho a dedo um filme bem dramático, uma tragédia, uma história de superação ou um romance mela-cueca que eu sei que, sem dúvidas, vai fazer com que as lágrimas brotem sem o menor esforço, e sairei de lá revigorada.

Foi isso o que procurei ao assistir "Te Amarei Para Sempre" (The Time Traveler's Wife, de Robert Schwentke), mas meu intuito foi por água abaixo. Uma história sobre uma mulher que se apaixona por um homem que, por sua vez, possui a condição (ou a maldição) de viajar no tempo sem que ele tenha o menor controle sobre isso, o que a faz sofrer com as repentinas ausências de seu amado... fato que era garantia para uma boa dose de emoção falsificada. Não aconteceu.
Para começar, o protagonista Eric Bana (ele mesmo, o "Incrível" Hulk), não tem carisma algum na tela, e em vários momentos parece um tiozão mais velho de Rachel McAdams, a tal esposa. Ela sim, é absolutamente encantadora, e tem o par de olhos mais significativos dessa nova geração de atores americanos. Entretanto, em vários momentos, a narrativa é confusa, e o espectador passa mais tempo tentando entender se, afinal, o personagem de Eric vai do presente para o passado, do presente para o futuro ou se, no final das contas, ele vive no futuro e somente volta no tempo, e por que ele lembra de alguns eventos que ele viu em outros tempos e não se lembra de outros, do que de fato tentando se envolver na história. Eis aqui a minha crítica, que talvez seja, inclusive, criticada por muitos: um dos méritos de Hollywood é o de fazer histórias sobre as quais não precisamos pensar muito, somente nos deixar envolver, sonhar, querer aquilo em nossas próprias vidas e, ao final, consumir! "Te Amarei Para Sempre" é baseado no livro homônimo de Audrey Niffenegger, o qual eu não li, mas suspeito que seja melhor narrado do que o roteiro adaptado de Bruce Joel Rubin.

Fui embora do Cinema com meu objetivo de debulhar-me em lágrimas completamente fracassado. Porém, ao chegar em casa, não pude furtar-me a pensar sobre o enredo principal do filme, e que vem a ser um dos meus assuntos principais, nos textos que escrevo e na vida: o tempo. Em algum momento da vida, todos pensamos como seria ótimo poder viajar no tempo. Assim, poderíamos reviver momentos felizes, brincar novamente com aquele nosso cachorrinho que morreu, matar saudades de tempos vividos, e até mesmo rirmos da nossa própria coragem por ter feito "aquele" corte de cabelo. Assim como seria possível, em nossos devaneios, voltar ao passado, tambem poderíamos viajar para o futuro, caso essa condição/maldição do personagem de Bana no filme realmente existisse. Dessa forma, veríamos como seríamos mais velhos, quais seriam os rostos dos nossos filhos, em que momento de nossas carreiras estaríamos em 5 ou 10 anos. Poderíamos, inclusive, começar a tomar cuidado ao tomar sol, a parar de comer besteiras, a realmente visitar o cardiologista uma vez por ano. Seria incrível ter esse controle de nossas próprias vidas, não seria?

Não, cheguei a conclusão de que não seria. Se pudéssemos voltar ao passado e reviver, ou rever, algumas situações, teríamos, então, o poder de mudá-las? Se pudéssemos, acabaríamos por mexer na ordem maior do tempo, no livre arbítrio das outras pessoas e nos tornaríamos, então, Deus. E isso seria catastrófico, pois imagine se mais de uma pessoa pudesse voltar no tempo e modificar um mesmo evento, de acordo com suas vontades pessoais? Verdadeiras guerras poderiam acontecer! No caso do filme, o personagem de Eric não podia modificar aquelas coisas que ele via no passado. Supondo que isso fosse possível na vida real, imagine que dor excruciante seria ter que rever aquele ente tão querido morrer, sem nada poder fazer para salvá-lo? Ou assistir o amor da sua vida indo embora sem que você pudesse chamá-lo para dizer "Não vai, não... fica comigo! Foi um erro não ficarmos juntos, você vai ver lá na frente!".
Mais grave, ao meu ver, seria a possibilidade de vermos o que aconteceria no nosso futuro, caso ele fosse realmente um caminho reto, sobre o qual não temos a menor escolha. E se víssemos que aquela faculdade que estamos fazendo não vai dar em nada, pois jamais seremos bem sucedidos naquela profissão? E se estivéssemos a um dia do nosso casamento com aquela pessoa mais especial do mundo, e descobríssemos que nos divorciaríamos em dois anos? E se contraíssemos uma doença sem cura, ficássemos irremediavelmente infelizes? É claro que todos gostaríamos de ver que nossas vidas futuras seriam um mar de rosas, mas e se não fosse assim? De tudo isso, o mais instigante é: se pudéssemos, de fato, ver o que aconteceria em nossas vidas, mudaríamos nossas escolhas? Mudaríamos de faculdade? Cancelaríamos o casamento? Pararíamos de fumar? E se não pudéssemos mudar, estaríamos para sempre condenados e fadados a escolhas fracassadas que nos levariam, por fim, a vida que não sonhamos?

Para todas essas perguntas, a única conclusão que consigo chegar é a de que existe, realmente, um motivo para a ordem natural das coisas ser do jeito que ela é. E esse filme só reforçou dois verdadeiros dogmas que tenho em minha vida: o primeiro, é tentar ao máximo aproveitar cada momento, cada dia, pois ele realmente não volta mais, nunca mais. Não me rendo, aqui, ao clichê do carpe diem e da "vida louca, vida breve", como muitos jovens gostam de clamar, mas me refiro a sincera experiência de aprendizado diário, e tentativa de proveito máximo. O segundo é minha completa descrença em cartomantes e fortune-tellers em geral, pelo simples fato de que, se pudéssemos saber o que vai acontecer em nossas vidas, teríamos um controle que não nos convém, e abriríamos mão de um dos nossos maiores bens: o livre-arbítrio. Além disso, estaria assumindo que a vida é, realmente, uma estrada traçada, o que muitos chamam de destino, e não um caminho que trilhamos com as nossas escolhas, certas ou erradas, mas sempre proveitosas, de alguma forma.

O poder de inverter a ordem do Tempo, esse grande Tempo que tanto me atormenta, só é possível por meio da deliciosa magia do Cinema.
Ainda bem.

sábado, 17 de outubro de 2009

Ôr, ô-ôr... Cada um com seu ditador.


Começo já pedindo que perdoem a minha ignorância aqueles mais politicamente engajados, mas eu desafio qualquer cidadão brasileiro comum (excetuando-se, talvez, os estudiosos e professores de Geografia), a apontar para mim no mapa onde fica Honduras. Se me disser que fica na América Central já está valendo, embora eu vá compreender se o humilde leitor achar que fica na América do Sul. Ok, América Central. Mas onde da América Central? Ficaria ali perto de Cuba? Ou de Porto Rico? Não, na verdade, Honduras fica perto da Nicarágua e da Guatemala. E é evidente que eu não sabia disso previamente, mas mais uma vez o Google Maps me localizou.
Não se trata de burrice, mas de falta de importância mesmo.

Não mudou a minha vida saber onde fica Honduras. Entretando, nas últimas semanas, esse pequeníssimo país tem sacolejado a vida política da nossa Pátria Amada - e Equivocada. Tudo porque o tal do Zelaya foi se abrigar na nossa embaixada, sem nem sequer pedir asilo político, simplesmente valendo-se do fato de que embaixadas são consideradas território estrangeiro, Logo, se um outro país invadi-la, é caso de guerra séria. Lá, praticamente montou um escritório particular, e discursava para os seus fiéis e fanáticos seguidores como se estivesse em um palanque, ou na varanda da sua casa.

Não entrarei nem no mérito de me questionar por que o Brasil tem uma embaixada em um país tão sem importância no cenário mundial, para não correr o risco de entrar na ignorância diplomática. Todavia, uma outra pergunta cabe aqui: alguem já tinha ouvido falar no Zelaya, antes de ele estampar as primeiras páginas de nossos mais importantes jornais? Alguem, de fato, se importa com quem deu o golpe primeiro? Afinal, por que estamos dando tanta importância a Zelaya?

Errado, muito errado. Sinceramente, acho tudo isso uma vergonha. Mais um motivo para sermos chacota mundial. Zelaya é um aprendiz de Chávez, o que nem em mil anos pode significar boa coisa. Foi ele, inclusive, que ajudou Zelaya a voltar escondido para Honduras, de onde tinha sido expulso, pois, entre outras pérolas, queria mudar a constituição de seu país para que pudesse permanecer por muito mais tempo no poder, tal qual o fez Chávez. Agora, por que ele não pediu asilo na embaixada venezuelana? Por que ele tinha que meter o nariz logo na nossa? A resposta para isso é fácil: porque o Chávez é muito mais malandro que o Lula, que só se acha esperto. Ele é "o cara", afinal. O Obama não disse? Então, se o Obama disse, tá dito.

Problemas diplomáticos à parte, a grande vergonha é, a meu ver, que nossos governantes estão fazendo exatamente o que sempre criticaram em nações poderosas, como os Estados Unidos: a prática do Imperialismo. O nem-um-pouco saudoso Bush não tinha nada que se meter nos assuntos do Iraque, não é mesmo? Então, por que estamos nós apitando no que acontece com Honduras? WHO CARES ABOUT HONDURAS????

É uma vergonha, de fato. Nem quando tentamos dar uma de importantes, mostrar que podemos ser Imperialistas também, fazemos isso certo. Nem mesmo escolhemos um país relevante para meter o bedelho, tem que ser logo algo tipo Honduras. República de Bananas, é o que somos. Errado, muito errado...

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Dizem que o tempo cura tudo. Falácia dos tempos, doce ilusão dos corações esperançosos por uma rendição, ingênua certeza no poder dos dias. O tempo não cura nada, ele somente mascara um sentimento que, sozinho, se cansa de existir. Os dias passam, os meses passam, até os anos passam, e novas preocupações e problemas surgem pelo caminho, tomando lugar de outros, já velhos conhecidos. É como uma ferida. Com o tempo, nos acostumamos e ela para de doer, momentaneamente. Por vezes até esquecemos que ela estava ali. Mas se batemos aquele local ferido em algum lugar, se derramamos sem querer alguma coisa nele, a ferida volta a doer. E aquela dor vem com tudo, impiedosamente nos lembrando da tortura que era senti-la antes. Assim como o tempo nada cura, são também falaciosas aquelas teorias populares que insistem em afirmar que, para curar uma paixão, só com outra. Ou que um novo corte de cabelo é capaz de superar desilusões, como se elas fossem embora junto com as madeixas. Ou até mesmo que um bom porre, ou uma enorme panela de brigadeiro, têm o poder de curar dores de cotovelo. Eles nada fazem além de nos fazer engordar e, quando se passa o efeito anestésico, sentirmos que não havia absolutamente nenhum motivo prático para aquilo.
Assim, se um dia você se machucou, ou se alguem te machucou, pode estar certo de que você pode até superar este confronto interno, amenizar esta situação quando outras tantas mágoas aparecerem, e viver bem - com sorte, muito bem - com isso. Vence-se a batalha, porém nunca a guerra. Como um vírus da gripe que nunca sai do seu organismo, e em qualquer recaída da sua saúde, qualquer momento de imunidade baixa, ele ataca novamente. Não é uma questão de perdão, mas de memória.
Viva com suas mágoas e suas dores, tente encará-las como cicatrizes, ou até mesmo belas tatuagens gravadas na sua pele, que preenchem seu corpo e contam a sua história, afinal elas são, também, parte da sua vida, e te fazem quem você é. Acima de tudo, procure fazer o seu melhor para não machucar ninguem, pois aquela pessoa tambem terá que lidar com isso para sempre. Porém, não se iluda, não se engane e não se prenda à esperança de que o tempo vai, por si só, fazer desaparecer tudo aquilo que te corrói hoje. Mas não se desespere! Não se prenda em uma bolha, não desista de interagir com as pessoas, não tenha medo de se arriscar em paixões e loucuras. A dor é física, e ela pode ser boa. Ela é a evidência amarga, porém profícua, de que ainda sentimos algo.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Carolina vesus a Gripe A.

Quando tinha uns onze anos, li um livro chamado “O Diário de um Adolescente Hipocondríaco”, e tive um daqueles momentos de revelação na vida. Descobri que aquilo que eu era não era um surto particular meu, e que tinha um nome e mais um monte de gente igual a mim. Sempre achei muito esquisita a minha mania, que existe desde que me entendo por gente, de andar bom uma bolsinha de remédios na bolsa. Ando sempre com Tylenol, Tylenol DC, Postan, Buscopan, Engov, Fluviral, Luftal e Plasil, além de pacotinhos daqueles de sal que todo mundo rouba de mesas de restaurante, para caso a pressão baixar. Na gavetinha da minha mesa de cabeceira, bem ao lado da minha cama, tenho a postos um termômetro e um pote de Passiflorine (calmantezinho leve pra dormir, coisa besta, tenho insônia quando fico nervosa). A qualquer pequeno sinal de alteração na minha temperatura, já coloco o termômetro para me certificar de que está tudo bem. No primeiro espirro, quando a garganta começa a arranhar, não hesito e entro logo no antibiótico. Não consigo conceber como algumas pessoas simplesmente suportam ficar sentindo dor física, principalmente aquelas que podemos evitar, como uma dor de cabeça ou dor de dente. E nada disso por ser extremamente cuidadosa com a minha saúde, afinal eu sou uma fumante. Acho que sou só meio freak mesmo. Mas assumo minha hipocondria como outros assumem que são viciados em sexo, alcoólatras, adoradores de seitas estranhas, ou fãs dos Jonas Brothers. E vivo bem assim.

Diante desse cenário, pode-se imaginar como estou neurótica com essa tal de Gripe A. Acompanho com veemência cada nova informação dos infectologistas nos jornais, e juro que já procurei saber onde vende o tal do Tamiflu. Estou com medo de tocar em qualquer coisa na rua. Demoro duas vezes mais em banheiros públicos, pois procuro não encostar minhas mãos em absolutamente nada. Empurro a porta com o corpo, uso um papel para apertar a descarga e para abrir a porta. Tomo o maior cuidado do planeta em não colocar as mãos nos olhos, boca ou nariz, enquanto estou na rua, porque dizem que se você tocar em algum lugar que alguém com gripe suína tocou, ou mesmo apertar as mãos de alguém com o vírus, e depois encostar a mão em um desses três lugares do seu rosto, já era! A suína te pegou de jeito.
Além disso, chego em casa e, antes de qualquer coisa, lavo muito bem as mãos, ensaboando umas três vezes. Se os médicos estão recomendando, é isso que eu faço. Tenho evitado de ficar em lugares fechados e com grandes aglomerações, olho de cara feia quando alguém espirra ou tosse do meu lado sem o cuidado de colocar a mão na frente, e estou cogitando a possibilidade de comprar um gelzinho pra levar na bolsa. Não parei de viver minha vida, é claro, mas não dou sorte para o azar.

O bicho ta pegando, a coisa ta ficando feia. E tem gente que ainda não se tocou nisso. Uma em quatro pessoas, na população mundial, vai pegar essa gripe. É uma pandemia séria, pior do que a ameaça do envelope com Antrax há alguns anos atrás, ou aquele mito de abrir um pote com varíola em um metrô em Nova York. Porque a Gripe A está bem aí, no nosso vizinho, no amiguinho da escola do seu filho que passou as férias na Disney, no seu colega da academia que foi pra Buenos Aires nas férias. Ela é uma ameaça e uma realidade, e está em todo lugar, se fazendo presente justamente na forma mais simples de doença, que todo mundo lida com naturalidade: uma gripe. Tenho, sim, sérias razões para estar com medo. E é por isso que, hoje, agradeço pela minha hipocondria, pois estou muito mais alerta do que os demais para os primeiros sinais de qualquer coisa errada no meu organismo. A neurose, as vezes, te ajuda a sobreviver.

Por enquanto está tudo bem comigo, e assim pretendo permanecer. Continuo acompanhando as notícias, e torcendo para que os infectologistas encontrem logo uma solução mais imediata, pois se a vacina realmente só chegar por aqui em março de 2010, a coisa vai ficar ainda mais feia. Só posso dizer que, diante de todos esses cuidados, tenho a mais absoluta razão de, se por acaso algo acontecer (toc toc toc, três vezes na madeira), mais do que amedrontada ao máximo, eu vou ficar é bastante irritada. Logo eu? A garota dos remédios na bolsa? Aquela que não sai de casa quando está com febre? Ah não... é muita sacanagem eu pegar a gripe suína! Suína! Logo eu, que sou filiada ao PETA e não como bacon! Desculpa, mas acho que eu mereço um certo desconto. Nada mais justo do que eu estar lá no final da fila, mais imune que os demais.

No mais, permaneço me cuidando, enquanto a suína ronda nossas portas.
And isn't it ironic? Don't you think...?

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Sobre certezas.

Aqui em casa rola uma espécie de clube do livro. Meu pai e eu temos uma mini-biblioteca em um cômodo acoplado à cozinha que, teoricamente, serviria como quartinho de empregada. Lá, guardamos como tesouros grandes livros, clássicos ou não, mas alguns meus, alguns dele – talvez esteja aí uma das origens de minha nerdice aguda. Além disso, meu pai costuma trocar de livros com amigos, numa espécie de escambo intelectual temporário, no qual o livro volta para seu dono original. E não importa exatamente o gênero ou o gosto. Simplesmente eles separam livros que gostaram e emprestam uns para os outros. Funciona, pois assim não se precisa comprar todos os livros que se quer ler (sim, eu sei que isso é um sacrilégio vindo de uma escritora).

Dessa vez, na última rodada de empréstimos, chegou aqui em casa um livro do Jabor. E como eu sou mais rápida no gatilho, já o separei para ler antes que meu pai o pegasse. E tenho devorado as crônicas de “Porno Política – paixões e taras na vida brasileira”, assim como eu devoro todo e qualquer texto ou filme que venha de Jabor. Uma delas, porém, me chamou a atenção de forma especial. E, surpreendentemente, dessa vez não pelo conteúdo. Jabor falava sobre uma de suas paixões e mulheres – ele teve muitas – e discorrendo sobre as entrelinhas e meandros do amor, ele soltou uma definição que me deixou encucada. Ele falou sobre "certezas imediatas".

Fiquei pensando no que seriam essas tais certezas imediatas, quando se trata de amor. E concluí que, na verdade, elas não existem no amor, e sim na paixão. E, pensando comigo mesma, concluí que são aquelas confianças inabaláveis que nos arrematam em toda e qualquer paixão.

Apaixonados, temos a mais absoluta certeza de que aquela não é somente mais uma pessoa, mas "a" pessoa. E que ninguém nos questione sobre isso, pois simplesmente não conseguimos compreender como os outros não conseguem enxergar o que é tão claro para nós. Ficamos absolutamente certos de que aquele beijo é o melhor beijo, aquele abraço é o melhor abraço, que em uma população de 6 bilhões de pessoas no mundo não há ninguém igual aquela pessoa. E que você vai ficar a vida inteira com ela, claro que vai. Simplesmente porque vai, porque é assim que tem que ser, você tem certeza disso. E elas todas, as certezas, vêm com uma rapidez impressionante. São imediatas, afinal. Batemos o olho e sabemos, nada mais é preciso.
Até aí, pode-se dizer que essas sensações são gostosas, e de certa forma até saudáveis. É uma delícia se apaixonar assim, e fazer planos e mais planos. As tais certezas imediatas, entretanto, passam a ser perigosas quando elas começam, pouco a pouco, a nos cegar. Ficamos tão inquestionavelmente certos de que aquilo que sentimos é a verdade absoluta, quase dogmática, que não enxergamos as pequenas e dolorosas falhas nesses posicionamentos tão absolutos. Quando o fogo baixa é quando começamos a perceber que essas certezas não são baseadas em argumentos concretos ou em fatos consumados, mas pura e simplesmente no que sentimos. E como muitas vezes, como já disse o poeta, "as idéias não correspondem aos fatos", passamos a nos perguntar se ainda temos tanta certeza mesmo daquilo tudo. Aos poucos, aquela pessoa tão absurdamente especial, tão incrivelmente feita sobre medida pra você, talvez – talvez mesmo – não seja enfim aquela com quem você vai envelhecer ao lado. E isso porque finalmente assimilamos que, infelizmente, não basta só um lado da história ser tão certo assim quanto a isso. Experimentamos outros beijos e vemos que, ainda que aquele tenha sido delicioso, há outros muito bons também. E, então, quando a paixão esfria, as certezas se esvaem. O que fica, muitas vezes, é uma mágoa que só passa com o tempo, mas acaba passando, eventualmente. As vezes ficam também fotos cortadas, cartas que nunca foram enviadas, e umas tatuagens com o nome dele ou dela em partes sugestivas do corpo, mas nada que umas sessões a laser não curem.

A grande questão é quando a paixão abaixa e as certezas ficam. E, então, elas se modificam um pouco. Elas não são mais tão imediatas, e passam a ser acompanhadas de leves dúvidas. Saudáveis, todavia. Mas ainda assim, permanecem certezas. Ainda sabemos – simplesmente sabemos – que aquela pessoa é especial demais, que ela mexeu conosco de forma única e nova. De que aquele beijo é, sim, talvez não melhor, mas muito mais deliciosamente particular do que todos os outros, até os que ainda não experimentamos. E que, mesmo que talvez, por ironia ou implicância da vida, não casemos com aquela pessoa para sermos felizes para sempre em uma linda casa com filhos e cachorros, isso realmente só aconteceria se desse tudo errado. Preferimos, porém, acreditar que tudo vai dar certo.

O que mudou, então?
O sentimento mudou. A paixão se transformou em algo muito maior, e ainda mais angustiante. Ela se transformou em amor. E no amor, não temos tantas certezas assim. Na verdade, temos muito mais dúvidas, em uma desproporção enorme em relação às certezas dogmáticas. Ainda assim, se somos tão certos quanto a algo que não é racionalmente explicado ou comprovado, mas pautado somente no que sentimos dentro de nós, é porque alguma coisa ali faz sentido. Não se sabe tanto, não se sente tanto, se for a toa.

O tempo – melhor remédio e psicólogo que se pode ter – vai poder dizer se nossas certezas eram coerentes, ou se foram por água abaixo. Enquanto isso, não vejo absolutamente nenhum mal em sentir isso, contanto que não te faça mal. Porque isso é amor, e ao contrário de certas teorias e visões que correm por aí, o amor não foi feito para te fazer mal.

Ter certeza não é um crime. E amar, acredite, não dói.