É possível ter a certeza de que o que é, afinal, é amor, quando afastado - voluntariamente - do objeto amado, ainda se ama. As vezes, apenas sabemos. Sabemos que aquela pessoa é a pessoa pra vida toda, mas não necessariamente esta vai cruzar o seu caminho no momento certo. Pra você ou para ela. Resta, então, esperar. O saber conforta.
Seria mentiroso de minha parte dizer que não dói. Dói saber que o objeto amado leva a vida na ignorância, sem saber que você está ali somente esperando por ele. Somente aguardando o momento em que talvez uma centelha divina o indique que o caminho é, por fim, você. E que os seus caminhos são os mesmos.
Sorte daqueles que têm a sabedoria e a serenidade de se saber afastar. De se saber sumir por uns tempos, andar por aí. Viver. E, se ainda assim, o sentimento persistir... Sim, é amor. E amor é ainda mais belo quando ele existe por si só, sem esperar a recompensa, a resposta. Porque assim ele é puro. Ela, a resposta, virá, mais cedo ou mais tarde. Porque no final das contas, é preciso amar. Muito e sempre. Várias pessoas ou uma só. E perder, e perder de novo, para que o sabor do "ganhar" seja ainda melhor.
A vida, simplesmente, só me faz sentido assim.
sexta-feira, 24 de abril de 2009
terça-feira, 7 de abril de 2009
Os longos cabelos de Teresa.
Teresa vinha postergando aquele momento por um bom tempo. Pelo menos, pelo máximo que ela era capaz de postergar. Se culpava até hoje de ter ido fazer um preventivo de rotina do seu ginecologista. As vezes, é melhor viver na ignorância. Evita-se o sofrimento. Ou posterga-se, enfim.
Ali, em frente ao espelho do banheiro, um turbilhão de memórias passavam em frente aos seus olhos. Tudo acontecera muito rápido, lhe parecia, desde que aquele papel pesara em suas mãos, como se tivessem uma tonelada, na cadeira do médico. De que maneira ele conseguia falar “câncer” de forma tão natural, ainda que tentasse um certo pesar no tom? Para não se sentir mal, talvez, ou para amenizar o possível impacto que o paciente teria, como quem diz “eu sei o que você está passando.”. – Sabe nada – pensou Teresa! É preciso ter pra saber, isso sim. Como conseguia aquele médico simplesmente encaminhá-la para um oncologista como se ela fosse uma mera candidata a estágio que passava para a próxima fase, sem nem ao menos digerir a anterior. Teresa não lembrava, porém, se havia falado alguma coisa ao médico, ou se simplesmente saíra do consultório, ainda com o papel do exame de uma tonelada nas mãos, sem rumo, sem saber para onde iria primeiro, ou a quem contar. Contou a Cristovão, evidentemente. Esperou o marido chegar em casa do trabalho e estendeu com as mãos trêmulas o fatídico papel para que ele pudesse ler. Há vinte e cinco anos de casamento, Cristovão era seu maior companheiro, sabia que ele a ajudaria a passar por essa fase, embora ela constantemente repetisse pessimistamente, para a irritação de Cristovão, que não acreditava que haveria uma próxima fase para ela. Teresa achava deveras amável as tentativas do marido para encorajá-la, repetindo os velhos argumentos de que a medicina está muito avançada hoje em dia, que os tratamentos são cada vez mais eficazes, que ela havia descoberto a doença logo no início, então tinha mais chances de cura. Amável era, mas pouco eficaz. “É preciso ter um tumor te consumindo por dentro para saber.”, ela repetia, mentalmente. Os amigos também não faltaram; “- Pelo menos é de colo do útero. – disse certa vez Pilar, sua vizinha. - A Elzinha teve de mama, teve que tirar um seio, coitada.”. Será possível que achavam que estavam animando ela assim? Classificando os tipos de câncer em uma tabela, como se fossem times para os quais torcer?
Teresa começara a ter pensamentos estranhos, ali na frente do espelho. “Quem sentirá saudades de mim primeiro? Do que sentirão mais saudades?”. Ouvira falar há muito tempo que a pessoa era acometida por um imenso sentimento de angústia por achar que seu rastro não vai fazer diferença no mundo, antes de morrer. Teresa não queria fazer diferença no mundo. Ela queria fazer diferença na vida das pessoas que amava, somente. Na verdade, não queria morrer, acima de tudo. Não tinha medo, propriamente, da morte. Só não achava que era a hora ainda. Tinha quarenta e cinco anos, se considerava uma jovem ainda. Ia uma vez por semana tomar uma cerveja com os amigos, ainda tinha os peitos empinados, aguentava duas aulas seguidas de spinning.
Não teve filhos. Nunca conseguiu. Agora se arrependia de nunca ter procurado um médico e se empenhado em tratamentos. Era bizarro pensar que um tumor, um minúsculo e corrosivo agente da morte, agora ocupava o lugar que poderia ter gerado uma vida. Porém, não havia mais tempo para arrependimentos. O próximo passo, ali em frente ao espelho do banheiro, era inevitável. Desde que começara a quimoterapia, Teresa sentia um medo sufocador de perder os cabelos. Não se importava com os enjôos e tonteiras causados pelo tratamento, conseguia lidar relativamente bem com eles, inclusive. Mas os cabelos, não. Fora famosa na juventude por eles. Eram longos, lisos, pesados. Tinham uma cor única que vacilava entre o castanho acobreado e o ruivo. E os anos que passaram não fizeram um único fio branco surgir no meio deles. Agora os usava mais em coque, presos para trás, condizendo com a idade. Mas que pena ela tinha, que medo ela tinha, de perder aqueles cabelos...
Mais do que perder os cabelos por si, ela tinha medo de perder Cristovão por perder os cabelos. Poderia parecer uma idéia idiota, mas quem iria questionar? As pessoas têm medo de brigar com doentes. Parece que estão cometendo um incrível erro. Mas a questão é que, desde que se conheceram, Cristovão constantemente falava dos cabelos dela. Elogiava um novo penteado, falava do cheiro bom que eles tinham ao sair do banho. E todas as noites que passaram juntos, durante esses vinte e cinco anos, Teresa se aninhava entre os braços do marido naqueles minutos antes de dormir e ele, delicada e devotamente, rolava seus dedos pelos fios, acarinhando a cabeça da esposa até que ela, finalmente, dormisse. Jamais dormia antes dela. Teresa tremia só de pensar o que Cristovão pensaria quando ela não mais tivesse cabelos por onde ele entrelaçar seus dedos. A deixaria por isso? Não conseguiria segurar a pressão? A abandonaria? Todas essas perguntas pioravam toda vez que seu peito era arrematado pela saudade antecipada que sentiria daquele carinho.
Percebendo que muito tempo se passara desde que começara os devaneios desta vez, Teresa deu uma ultima olhada no espelho, e mirou bem, talvez para nunca mais, o equilíbrio de seu rosto com seus cabelos. Foi a sua vez de percorrer, com seus dedos, os longos fios, do couro cabeludo até suas pontas, uma, duas, três vezes, como se quisesse guardar no tato, nas pontas das extremidades dos dedos, a sensação que aquele simples ato conferia. Secou a única lagrima que caiu do olho esquerdo. Única, não era de chorar. E então pegou a tesoura na ponta da pia. Com muita dor, como se de fato pudesse sentir as lâminas, deu o primeiro corte. O primeiro tufo, bastante volumoso, caiu sobre a pia. Teresa não teve coragem de olhar para o cabelo caído; preferia, de qualquer forma, continuar focando o espelho, que agora revelava o desequilíbrio do corte. Pegou outro grande chumaço com a mão e cortou fora. Fez isso repetidas vezes, sempre com muito pesar, até que todo seu cabelo ficasse na altura dos olhos. Se aquela imagem já era chocante para Teresa, não conseguia imaginar a que viria em seguida. Sem desgrudar os olhos do espelho, para não olhar o cabelo caído por toda a extensão da pia, localizou com as mãos a máquina. Ligou-a, e nunca pensou que aquele barulho daquela maquina que ouvia todas as manhãs quando Cristovão fazia a barba pudesse ser tão perturbador. Respirando fundo uma única vez, ela encostou a máquina na cabeça e deu um puxão para trás. Dessa vez era demais, não poderia ficar assistindo sua própria decadência, então fechou os olhos forçadamente, não só para não ver, mas também para não permitir que as lágrimas saíssem. Como se quisesse acabar logo com aquilo, fez o mais rápido que pode, nem sabe quantas vezes. Sentiu que não havia mais o que raspar, e largou a máquina. Não abriu ainda os olhos. Devagar, levantou os braços e levou as mãos a cabeça, tocando-a tão vagarosa e delicadamente como se fosse um cristal que pudesse quebrar com o toque. Não era cuidado, ela sabia, era medo da sensação. A estranheza foi diferente do que ela calculou que seria. Talvez fosse o velho ditado de que “o que os olhos não vêem o coração não sente.”. Era como se estivesse tocando outra cabeça, de outra pessoa, que não a dela. Mas sabia que não era suficiente. Por dentro sabia, era uma mulher adulta, madura. Tinha que abrir os olhos. Já estava feito, não tinha volta.
Abriu os olhos. Por alguns segundos, sua respiração parou. Por alguns segundos, o mundo inteiro parou. Não era choque, não era tristeza. Não era raiva que ela sentia. Surpreendentemente, o que Teresa sentia era saudade. E não as saudades antecipadas de antes, dos dedos carinhosos do marido nos cabelos que não tinha mais. Era mais. Era saudade de toda uma vida que ela sabia que tinha se esvaído junto com aquelas centenas de fios. Era o simples andar na rua que não mais existiria sem que as pessoas a encarassem com aquele olhar de “você está doente, coitada.”. Era o prazer de se arrumar para uma festa que não mais existiria, pois nenhum lenço tão bonito ou elegante como seus cabelos antes eram. Era a brisa de verão fresquinha que sentia balançar suas madeixas, refrescando do calor. Era a mania de toda hora ficar fazendo e desfazendo um rabo de cavalo improvisado. E como não poderia deixar de voltar, era ele. Era a saudade do carinho de Cristovão. Eram seus dedos que nunca mais iriam carinhar sua cabeça. Ele não ia querer nem mesmo tocar naquela cabeça, teria nojo, teria ojeriza. Teresa ia morrer, já sabia. Diante de tudo isso, não ia nem mesmo ter a vontade de procurar as forças para continuar vivendo.
Foi no meio desse pensamento que Cristovão abriu a porta do banheiro. Teresa não ouvira, de tão absorta que estava entre seus pensamentos, mas há alguns minutos o marido batia na porta, chamando por ela, perguntando o que estava acontecendo. Preocupado com a falta de resposta, ele finalmente conseguiu escancarar a porta, para tão somente olhar aquela cena. Pela primeira vez naquela tarde, Teresa desgrudou os olhos do espelho, e olhou para ele. Pela primeira vez na vida ela se deixou chorar. E as lágrimas caiam involuntariamente, como se ela não tivesse nenhum controle sobre aquilo. Apreensiva, Teresa não falou nada. Implorava secretamente por um sinal de apoio, mas já estava convencida a aceitar se ele a quisesse abandonar. O amava muito para forçá-lo a passar por aquilo junto com ela.
Cristovão percorreu o olhar pela pia, e viu os vários tufos de cabelo, de diferentes tamanhos, espalhados. Olhou, então, para a mulher. Nunca a vira daquele jeito, era de se admitir. Não somente careca, mas chorando compulsivamente. Mas ele a amava tanto! Sabia que a amava, mas ao vê-la assim, tomou conta de seu peito um daqueles momentos em que o ser humano tem certeza daquilo que ele já sabe, de alguma forma. Percebeu que não tinha expressado nenhuma feição em seu rosto que confortara a mulher, pois ela continuava parada, nervosa, esperando que ele desse as costas e saísse. Mas ele não virou de costas. Ao invés disso, ele caminhou até ela, passo a passo. Chegou tão perto dela a ponto de sentir o cheiro fresco da lavanda pós banho que ela usava desde que se casaram, e em cujo aroma ele era incalculavelmente viciado. Levantou os dedos e secou as lágrimas que caiam do rosto da esposa. Beijou sua testa. E sem falar nada, pegou-a no colo, como os noivos fazem. Ainda silenciosamente, levou-a até a cama e deitou-a. o choro de Teresa tinha cessado para dar lugar a uma promessa de sensação de alivio, que ainda não tinha se concretizado porque, dentro dela, sabia que ainda tinha mais por vir. E então, Cristovão deitou ao seu lado, puxou-a pelos braços com cuidado e a aninhou em seus braços. E inesperadamente, começou a fazer carinho na cabeça de Teresa. Ela olhou assustada para ele! Não sentira repugno?
E como se nada tivesse acontecido, ele continuou a deslizar seus dedos amavelmente pela cabeça dela, como se não fizesse diferença a falta de cabelos ali. Assim ficou por algum bom tempo, incansavelmente, porque naquela noite Teresa custou a dormir. A sensação de conforto que aquele simples ato de amor foi capaz de lhe proporcionar foi o suficiente para que ela percebesse que talvez a próxima fase viesse, que talvez tivesse sim vontade de procurar forças para lutar. E que talvez as saudades antecipadas que sentira daquele carinho não fizessem sentido, pois na verdade, o amor da sua vida acabara de provar que não havia nem a mais remota promessa de espaço para elas.
Ali, em frente ao espelho do banheiro, um turbilhão de memórias passavam em frente aos seus olhos. Tudo acontecera muito rápido, lhe parecia, desde que aquele papel pesara em suas mãos, como se tivessem uma tonelada, na cadeira do médico. De que maneira ele conseguia falar “câncer” de forma tão natural, ainda que tentasse um certo pesar no tom? Para não se sentir mal, talvez, ou para amenizar o possível impacto que o paciente teria, como quem diz “eu sei o que você está passando.”. – Sabe nada – pensou Teresa! É preciso ter pra saber, isso sim. Como conseguia aquele médico simplesmente encaminhá-la para um oncologista como se ela fosse uma mera candidata a estágio que passava para a próxima fase, sem nem ao menos digerir a anterior. Teresa não lembrava, porém, se havia falado alguma coisa ao médico, ou se simplesmente saíra do consultório, ainda com o papel do exame de uma tonelada nas mãos, sem rumo, sem saber para onde iria primeiro, ou a quem contar. Contou a Cristovão, evidentemente. Esperou o marido chegar em casa do trabalho e estendeu com as mãos trêmulas o fatídico papel para que ele pudesse ler. Há vinte e cinco anos de casamento, Cristovão era seu maior companheiro, sabia que ele a ajudaria a passar por essa fase, embora ela constantemente repetisse pessimistamente, para a irritação de Cristovão, que não acreditava que haveria uma próxima fase para ela. Teresa achava deveras amável as tentativas do marido para encorajá-la, repetindo os velhos argumentos de que a medicina está muito avançada hoje em dia, que os tratamentos são cada vez mais eficazes, que ela havia descoberto a doença logo no início, então tinha mais chances de cura. Amável era, mas pouco eficaz. “É preciso ter um tumor te consumindo por dentro para saber.”, ela repetia, mentalmente. Os amigos também não faltaram; “- Pelo menos é de colo do útero. – disse certa vez Pilar, sua vizinha. - A Elzinha teve de mama, teve que tirar um seio, coitada.”. Será possível que achavam que estavam animando ela assim? Classificando os tipos de câncer em uma tabela, como se fossem times para os quais torcer?
Teresa começara a ter pensamentos estranhos, ali na frente do espelho. “Quem sentirá saudades de mim primeiro? Do que sentirão mais saudades?”. Ouvira falar há muito tempo que a pessoa era acometida por um imenso sentimento de angústia por achar que seu rastro não vai fazer diferença no mundo, antes de morrer. Teresa não queria fazer diferença no mundo. Ela queria fazer diferença na vida das pessoas que amava, somente. Na verdade, não queria morrer, acima de tudo. Não tinha medo, propriamente, da morte. Só não achava que era a hora ainda. Tinha quarenta e cinco anos, se considerava uma jovem ainda. Ia uma vez por semana tomar uma cerveja com os amigos, ainda tinha os peitos empinados, aguentava duas aulas seguidas de spinning.
Não teve filhos. Nunca conseguiu. Agora se arrependia de nunca ter procurado um médico e se empenhado em tratamentos. Era bizarro pensar que um tumor, um minúsculo e corrosivo agente da morte, agora ocupava o lugar que poderia ter gerado uma vida. Porém, não havia mais tempo para arrependimentos. O próximo passo, ali em frente ao espelho do banheiro, era inevitável. Desde que começara a quimoterapia, Teresa sentia um medo sufocador de perder os cabelos. Não se importava com os enjôos e tonteiras causados pelo tratamento, conseguia lidar relativamente bem com eles, inclusive. Mas os cabelos, não. Fora famosa na juventude por eles. Eram longos, lisos, pesados. Tinham uma cor única que vacilava entre o castanho acobreado e o ruivo. E os anos que passaram não fizeram um único fio branco surgir no meio deles. Agora os usava mais em coque, presos para trás, condizendo com a idade. Mas que pena ela tinha, que medo ela tinha, de perder aqueles cabelos...
Mais do que perder os cabelos por si, ela tinha medo de perder Cristovão por perder os cabelos. Poderia parecer uma idéia idiota, mas quem iria questionar? As pessoas têm medo de brigar com doentes. Parece que estão cometendo um incrível erro. Mas a questão é que, desde que se conheceram, Cristovão constantemente falava dos cabelos dela. Elogiava um novo penteado, falava do cheiro bom que eles tinham ao sair do banho. E todas as noites que passaram juntos, durante esses vinte e cinco anos, Teresa se aninhava entre os braços do marido naqueles minutos antes de dormir e ele, delicada e devotamente, rolava seus dedos pelos fios, acarinhando a cabeça da esposa até que ela, finalmente, dormisse. Jamais dormia antes dela. Teresa tremia só de pensar o que Cristovão pensaria quando ela não mais tivesse cabelos por onde ele entrelaçar seus dedos. A deixaria por isso? Não conseguiria segurar a pressão? A abandonaria? Todas essas perguntas pioravam toda vez que seu peito era arrematado pela saudade antecipada que sentiria daquele carinho.
Percebendo que muito tempo se passara desde que começara os devaneios desta vez, Teresa deu uma ultima olhada no espelho, e mirou bem, talvez para nunca mais, o equilíbrio de seu rosto com seus cabelos. Foi a sua vez de percorrer, com seus dedos, os longos fios, do couro cabeludo até suas pontas, uma, duas, três vezes, como se quisesse guardar no tato, nas pontas das extremidades dos dedos, a sensação que aquele simples ato conferia. Secou a única lagrima que caiu do olho esquerdo. Única, não era de chorar. E então pegou a tesoura na ponta da pia. Com muita dor, como se de fato pudesse sentir as lâminas, deu o primeiro corte. O primeiro tufo, bastante volumoso, caiu sobre a pia. Teresa não teve coragem de olhar para o cabelo caído; preferia, de qualquer forma, continuar focando o espelho, que agora revelava o desequilíbrio do corte. Pegou outro grande chumaço com a mão e cortou fora. Fez isso repetidas vezes, sempre com muito pesar, até que todo seu cabelo ficasse na altura dos olhos. Se aquela imagem já era chocante para Teresa, não conseguia imaginar a que viria em seguida. Sem desgrudar os olhos do espelho, para não olhar o cabelo caído por toda a extensão da pia, localizou com as mãos a máquina. Ligou-a, e nunca pensou que aquele barulho daquela maquina que ouvia todas as manhãs quando Cristovão fazia a barba pudesse ser tão perturbador. Respirando fundo uma única vez, ela encostou a máquina na cabeça e deu um puxão para trás. Dessa vez era demais, não poderia ficar assistindo sua própria decadência, então fechou os olhos forçadamente, não só para não ver, mas também para não permitir que as lágrimas saíssem. Como se quisesse acabar logo com aquilo, fez o mais rápido que pode, nem sabe quantas vezes. Sentiu que não havia mais o que raspar, e largou a máquina. Não abriu ainda os olhos. Devagar, levantou os braços e levou as mãos a cabeça, tocando-a tão vagarosa e delicadamente como se fosse um cristal que pudesse quebrar com o toque. Não era cuidado, ela sabia, era medo da sensação. A estranheza foi diferente do que ela calculou que seria. Talvez fosse o velho ditado de que “o que os olhos não vêem o coração não sente.”. Era como se estivesse tocando outra cabeça, de outra pessoa, que não a dela. Mas sabia que não era suficiente. Por dentro sabia, era uma mulher adulta, madura. Tinha que abrir os olhos. Já estava feito, não tinha volta.
Abriu os olhos. Por alguns segundos, sua respiração parou. Por alguns segundos, o mundo inteiro parou. Não era choque, não era tristeza. Não era raiva que ela sentia. Surpreendentemente, o que Teresa sentia era saudade. E não as saudades antecipadas de antes, dos dedos carinhosos do marido nos cabelos que não tinha mais. Era mais. Era saudade de toda uma vida que ela sabia que tinha se esvaído junto com aquelas centenas de fios. Era o simples andar na rua que não mais existiria sem que as pessoas a encarassem com aquele olhar de “você está doente, coitada.”. Era o prazer de se arrumar para uma festa que não mais existiria, pois nenhum lenço tão bonito ou elegante como seus cabelos antes eram. Era a brisa de verão fresquinha que sentia balançar suas madeixas, refrescando do calor. Era a mania de toda hora ficar fazendo e desfazendo um rabo de cavalo improvisado. E como não poderia deixar de voltar, era ele. Era a saudade do carinho de Cristovão. Eram seus dedos que nunca mais iriam carinhar sua cabeça. Ele não ia querer nem mesmo tocar naquela cabeça, teria nojo, teria ojeriza. Teresa ia morrer, já sabia. Diante de tudo isso, não ia nem mesmo ter a vontade de procurar as forças para continuar vivendo.
Foi no meio desse pensamento que Cristovão abriu a porta do banheiro. Teresa não ouvira, de tão absorta que estava entre seus pensamentos, mas há alguns minutos o marido batia na porta, chamando por ela, perguntando o que estava acontecendo. Preocupado com a falta de resposta, ele finalmente conseguiu escancarar a porta, para tão somente olhar aquela cena. Pela primeira vez naquela tarde, Teresa desgrudou os olhos do espelho, e olhou para ele. Pela primeira vez na vida ela se deixou chorar. E as lágrimas caiam involuntariamente, como se ela não tivesse nenhum controle sobre aquilo. Apreensiva, Teresa não falou nada. Implorava secretamente por um sinal de apoio, mas já estava convencida a aceitar se ele a quisesse abandonar. O amava muito para forçá-lo a passar por aquilo junto com ela.
Cristovão percorreu o olhar pela pia, e viu os vários tufos de cabelo, de diferentes tamanhos, espalhados. Olhou, então, para a mulher. Nunca a vira daquele jeito, era de se admitir. Não somente careca, mas chorando compulsivamente. Mas ele a amava tanto! Sabia que a amava, mas ao vê-la assim, tomou conta de seu peito um daqueles momentos em que o ser humano tem certeza daquilo que ele já sabe, de alguma forma. Percebeu que não tinha expressado nenhuma feição em seu rosto que confortara a mulher, pois ela continuava parada, nervosa, esperando que ele desse as costas e saísse. Mas ele não virou de costas. Ao invés disso, ele caminhou até ela, passo a passo. Chegou tão perto dela a ponto de sentir o cheiro fresco da lavanda pós banho que ela usava desde que se casaram, e em cujo aroma ele era incalculavelmente viciado. Levantou os dedos e secou as lágrimas que caiam do rosto da esposa. Beijou sua testa. E sem falar nada, pegou-a no colo, como os noivos fazem. Ainda silenciosamente, levou-a até a cama e deitou-a. o choro de Teresa tinha cessado para dar lugar a uma promessa de sensação de alivio, que ainda não tinha se concretizado porque, dentro dela, sabia que ainda tinha mais por vir. E então, Cristovão deitou ao seu lado, puxou-a pelos braços com cuidado e a aninhou em seus braços. E inesperadamente, começou a fazer carinho na cabeça de Teresa. Ela olhou assustada para ele! Não sentira repugno?
E como se nada tivesse acontecido, ele continuou a deslizar seus dedos amavelmente pela cabeça dela, como se não fizesse diferença a falta de cabelos ali. Assim ficou por algum bom tempo, incansavelmente, porque naquela noite Teresa custou a dormir. A sensação de conforto que aquele simples ato de amor foi capaz de lhe proporcionar foi o suficiente para que ela percebesse que talvez a próxima fase viesse, que talvez tivesse sim vontade de procurar forças para lutar. E que talvez as saudades antecipadas que sentira daquele carinho não fizessem sentido, pois na verdade, o amor da sua vida acabara de provar que não havia nem a mais remota promessa de espaço para elas.
terça-feira, 31 de março de 2009
"Eu ando sempre pra sentir vontade."
Na primeira vez que a ouvi, no rádio, há alguns meses, de cara essa música me encantou. Era a boa e velha poesia de Marcelo Camelo, da qual tantos fãs, órfãos de Los Hermanos, são constantemente saudosos. Meu espanto veio quando a parte de Camelo acabou e a voz que entrou não me era estranha, mas eu não sabia localiza-la nos cantos recônditos da minha mente. Depois reconheci. Era aquela menina que cantava “If you come over I will say thubaruba...”, que teve mais de um milhão de acessos no My Space... Mas qual era o nome dela mesmo?
Mallu Magalhães, como o locutor me elucidou depois.
Chegando em casa fiz o download, e desde então a ouço sempre. Acho bonita, cheia de propriedade e, acima de tudo, com uma profundidade e um pesar enormes. E a tristeza, assim como a alegria, pode ser belíssima. Por estes motivos, desde que ela entrou por meus ouvidos e em minha vida, me questiono o por quê de seu nome ser “Janta”. Essa palavra, nem nenhuma correlata, aparece vez alguma na letra. Como artista único que é, Camelo bota a galera pra pensar. Talvez por isso cada um tenha uma explicação ou teoria particular. Eu tenho a minha.
“Janta” fala de despedida, de adeus, de abdicar de algo e deixar nas mãos da Vida. Fala da dualidade que, volta e meia, corrói todos nós: a vontade versus a temperança. O “querer” versus o “dever”. E quando não há realmente saída, quando a encruzilhada se forma diante dos olhos, só resta entregar a algo fora de nós, talvez maior, talvez mais etéreo, o nosso próprio destino. Mas ao fazermos isso, ao entregarmos nossa Sorte à Vida, a Deus ou ao que quer que seja, ao nos reservarmos do poder de decidir o que virá, temos, aí, uma gota de esperança. Talvez esse “infinito” possa nos trazer respostas que não conhecemos, possa nos levar a lugares novos e bons, possa escolher para nós uma sina melhor, mais feliz. Assim, consentimos. E a música retrata exatamente esse depósito de esperança no destino, diante da impossibilidade de continuar-se da maneira que está.
Janta, no sentido literal, é isso. O jantar é, através da história, um momento de celebração e, muitas vezes, de despedida. Almoços de casamento ou de aniversário não são tão elegantes, ou têm tanto significado subjetivo, quanto jantares de casamento ou de aniversário. Na Bíblia, a última refeição não foi o café-da-manhã.
A janta tem angústia. Tem ares de finalidade. É na hora do jantar que nos recolhemos para um fim, e a esperança de um começo. O fim de mais um dia. E o começo de um outro, no seguinte. Se ele virá, não sabemos. Esperamos, somente.
Mas de que vale a minha opinião? Eis o poeta, em sua melhor forma:
JANTA
(Marcelo Camelo e Mallu Magalhães)
Eu quis te conhecer
Mas, tenho que aceitar
Caberá ao nosso amor o eterno ou o “não dá”...
Pode ser cruel a eternidade
Eu ando em frente por sentir vontade.
Eu quis te convencer
Mas, chega de insistir
Caberá ao nosso amor o que há de vir...
Pode ser a eternidade má
Caminho em frente pra sentir saudade.
Paper clips and crayons in my bed
Everybody thinks I am sad
I take a ride in melodies and bees and birds
Will hear my words
Will be both us, and you, and them… together.
‘Cause I can forget about myself
Trying to be everybody else
I feel alright then we can go away
And please my day…
I’ll let you stay with me if you surrender.
Eu quis te conhecer
Mas, tenho que aceitar
Caberá ao nosso amor o eterno ou o “não dá”...
Pode ser a eternidade má
Eu ando sempre pra sentir vontade.
Mallu Magalhães, como o locutor me elucidou depois.
Chegando em casa fiz o download, e desde então a ouço sempre. Acho bonita, cheia de propriedade e, acima de tudo, com uma profundidade e um pesar enormes. E a tristeza, assim como a alegria, pode ser belíssima. Por estes motivos, desde que ela entrou por meus ouvidos e em minha vida, me questiono o por quê de seu nome ser “Janta”. Essa palavra, nem nenhuma correlata, aparece vez alguma na letra. Como artista único que é, Camelo bota a galera pra pensar. Talvez por isso cada um tenha uma explicação ou teoria particular. Eu tenho a minha.
“Janta” fala de despedida, de adeus, de abdicar de algo e deixar nas mãos da Vida. Fala da dualidade que, volta e meia, corrói todos nós: a vontade versus a temperança. O “querer” versus o “dever”. E quando não há realmente saída, quando a encruzilhada se forma diante dos olhos, só resta entregar a algo fora de nós, talvez maior, talvez mais etéreo, o nosso próprio destino. Mas ao fazermos isso, ao entregarmos nossa Sorte à Vida, a Deus ou ao que quer que seja, ao nos reservarmos do poder de decidir o que virá, temos, aí, uma gota de esperança. Talvez esse “infinito” possa nos trazer respostas que não conhecemos, possa nos levar a lugares novos e bons, possa escolher para nós uma sina melhor, mais feliz. Assim, consentimos. E a música retrata exatamente esse depósito de esperança no destino, diante da impossibilidade de continuar-se da maneira que está.
Janta, no sentido literal, é isso. O jantar é, através da história, um momento de celebração e, muitas vezes, de despedida. Almoços de casamento ou de aniversário não são tão elegantes, ou têm tanto significado subjetivo, quanto jantares de casamento ou de aniversário. Na Bíblia, a última refeição não foi o café-da-manhã.
A janta tem angústia. Tem ares de finalidade. É na hora do jantar que nos recolhemos para um fim, e a esperança de um começo. O fim de mais um dia. E o começo de um outro, no seguinte. Se ele virá, não sabemos. Esperamos, somente.
Mas de que vale a minha opinião? Eis o poeta, em sua melhor forma:
JANTA
(Marcelo Camelo e Mallu Magalhães)
Eu quis te conhecer
Mas, tenho que aceitar
Caberá ao nosso amor o eterno ou o “não dá”...
Pode ser cruel a eternidade
Eu ando em frente por sentir vontade.
Eu quis te convencer
Mas, chega de insistir
Caberá ao nosso amor o que há de vir...
Pode ser a eternidade má
Caminho em frente pra sentir saudade.
Paper clips and crayons in my bed
Everybody thinks I am sad
I take a ride in melodies and bees and birds
Will hear my words
Will be both us, and you, and them… together.
‘Cause I can forget about myself
Trying to be everybody else
I feel alright then we can go away
And please my day…
I’ll let you stay with me if you surrender.
Eu quis te conhecer
Mas, tenho que aceitar
Caberá ao nosso amor o eterno ou o “não dá”...
Pode ser a eternidade má
Eu ando sempre pra sentir vontade.
sexta-feira, 27 de março de 2009
Tapa na cara.
Me preocupa o fuzuê que Ele Não Está Tão A Fim De Você (He’s Just Not That Into You, de Ken Kwapis, EUA 2009) tem causado, principalmente junto ao público feminino. Baseado em um Best Seller americano - nada mais do que um livro de auto-ajuda que promete às mulheres o tão esperado entendimento do comportamento masculino - o mesmo chegou aos cinemas com um time de estrelas de primeira grandeza da Hollywood atual, o que, junto com a narrativa melosa e engraçadinha, garante o sucesso de bilheteria. Jennifer Aniston, Ben Affleck, Drew Barrymore, Jennifer Connelly, Scarlett Johansson e a simpática Ginnifer Goodwin, entre outros, têm suas histórias de vida cruzadas, nas aventuras e desventuras de relacionamentos amorosos.
Tendo alguma noção sobre o assunto, uma vez que não passei os últimos quatro anos de minha vida estudando cálculos matemáticos ou fórmulas químicas, posso dizer com uma certa autoridade: Mulheres do meu Brasil, acalmem-se. Isso é SÓ um filme.
Filmes são filmes. Até os que recontam histórias verídicas continuam, indefinidamente, sendo filmes. São obras ficcionais, com fórmulas e facetas narrativas e visuais previamente pensadas para alcançarem um ou outro público, uma ou outra reação. E pra conseguir dinheiro, é claro. Afinal, Cinema, além de arte, é indústria e comércio também. Os personagens, por sua vez, não são pessoas reais. Em um roteiro, eles são construídos de forma que adotem arquétipos bastante específicos, e possam ser mais naturalmente apontados pelo público com personalidades fechadas e peculiares. Já disse isso aqui mesmo no blog, e repito: as pessoas, na vida real, são muito mais complexas do que isso.
Ele Não Está Tão A Fim De Você é pautado em explicações de por quê os homens fazem o que fazem. Porém, embora tudo acabe bem, uma vez que é uma comédia-romântica americana, ele se baseia em afirmações que podem ser interpretadas quase como uma Constituição pelas mentes mais desavisadas. Tudo bem que certas coisas não precisam de muita indagação: Se o cara não te liga é porque, realmente, ele não está a fim de te ligar. Se ele quiser te ligar, quiser te ver, te encontrar, ele vai dar um jeito. Não tem essa de trabalho demais, viagens a negócios aqui, compromissos profissionais ali. Muito menos a ladainha de “não estar pronto para um relacionamento sério” ou “estar com medo de se envolver.”. Sou uma pessoa que tem muitos amigos homens, e de algumas coisas eu simplesmente sei. Em primeiro lugar, homens não pensam como mulheres. Em segundo lugar, quando o cara está realmente a fim da mulher, ele faz acontecer. O tal do orgulho pode até retardar um pouco o processo, mas não o elimina de vez. A grande questão é que não é necessário um livro, ou muito menos um filme, para nos dizer isso. A vida se encarrega de nos ensinar. Se você que está lendo esse texto é mulher e ainda insiste em discutir com isso tudo, você só está se enganando e, mais cedo ou mais tarde, com um ou mil tapas da vida na cara, você vai aprender.
Porém, quando se trata de amor, carinho, paixão ou o nome que for, não existe lógica. Não se trata de aritmética, física quântica, ou muito menos um processo legal, no qual os argumentos são objetivos, retos, racionais. Em matérias do coração, muitas vezes a racionalidade vai por água abaixo, pois como amor não se explica, é comum termos que decidir pautado simplesmente no que sentimos. É subjetivo, irracional, conturbado. O que faz uma pessoa feliz é diferente do que faz a outra, e assim vai. Por isso, não comprem todas as idéias que o filme vende. Encarem-no como uma leve diversão, exatamente o que ele tem que ser – e é. Não pensem que ali estão grandes lições de vida, os segredos da alma masculina e, menos ainda, as regras e as exceções a elas. Não há exceções, simplesmente porque não há regras. O que vale, no fim das contas, é arriscar. E não perder as esperanças ou se deprimir com fórmulas pré-estabelecidas.
Mas ainda assim, não esperem plantadas ao lado do telefone, ou confiram suas caixas de e-mails várias vezes por dia se ele não te procurou. Partam pra outra se o cara começar a dar desculpas demais. Não há nada mais deprimente do que uma mulher que insiste em mentir pra si mesma.
No fim do dia, você vai perceber. Ele não está tão a fim de você.
Tendo alguma noção sobre o assunto, uma vez que não passei os últimos quatro anos de minha vida estudando cálculos matemáticos ou fórmulas químicas, posso dizer com uma certa autoridade: Mulheres do meu Brasil, acalmem-se. Isso é SÓ um filme.
Filmes são filmes. Até os que recontam histórias verídicas continuam, indefinidamente, sendo filmes. São obras ficcionais, com fórmulas e facetas narrativas e visuais previamente pensadas para alcançarem um ou outro público, uma ou outra reação. E pra conseguir dinheiro, é claro. Afinal, Cinema, além de arte, é indústria e comércio também. Os personagens, por sua vez, não são pessoas reais. Em um roteiro, eles são construídos de forma que adotem arquétipos bastante específicos, e possam ser mais naturalmente apontados pelo público com personalidades fechadas e peculiares. Já disse isso aqui mesmo no blog, e repito: as pessoas, na vida real, são muito mais complexas do que isso.
Ele Não Está Tão A Fim De Você é pautado em explicações de por quê os homens fazem o que fazem. Porém, embora tudo acabe bem, uma vez que é uma comédia-romântica americana, ele se baseia em afirmações que podem ser interpretadas quase como uma Constituição pelas mentes mais desavisadas. Tudo bem que certas coisas não precisam de muita indagação: Se o cara não te liga é porque, realmente, ele não está a fim de te ligar. Se ele quiser te ligar, quiser te ver, te encontrar, ele vai dar um jeito. Não tem essa de trabalho demais, viagens a negócios aqui, compromissos profissionais ali. Muito menos a ladainha de “não estar pronto para um relacionamento sério” ou “estar com medo de se envolver.”. Sou uma pessoa que tem muitos amigos homens, e de algumas coisas eu simplesmente sei. Em primeiro lugar, homens não pensam como mulheres. Em segundo lugar, quando o cara está realmente a fim da mulher, ele faz acontecer. O tal do orgulho pode até retardar um pouco o processo, mas não o elimina de vez. A grande questão é que não é necessário um livro, ou muito menos um filme, para nos dizer isso. A vida se encarrega de nos ensinar. Se você que está lendo esse texto é mulher e ainda insiste em discutir com isso tudo, você só está se enganando e, mais cedo ou mais tarde, com um ou mil tapas da vida na cara, você vai aprender.
Porém, quando se trata de amor, carinho, paixão ou o nome que for, não existe lógica. Não se trata de aritmética, física quântica, ou muito menos um processo legal, no qual os argumentos são objetivos, retos, racionais. Em matérias do coração, muitas vezes a racionalidade vai por água abaixo, pois como amor não se explica, é comum termos que decidir pautado simplesmente no que sentimos. É subjetivo, irracional, conturbado. O que faz uma pessoa feliz é diferente do que faz a outra, e assim vai. Por isso, não comprem todas as idéias que o filme vende. Encarem-no como uma leve diversão, exatamente o que ele tem que ser – e é. Não pensem que ali estão grandes lições de vida, os segredos da alma masculina e, menos ainda, as regras e as exceções a elas. Não há exceções, simplesmente porque não há regras. O que vale, no fim das contas, é arriscar. E não perder as esperanças ou se deprimir com fórmulas pré-estabelecidas.
Mas ainda assim, não esperem plantadas ao lado do telefone, ou confiram suas caixas de e-mails várias vezes por dia se ele não te procurou. Partam pra outra se o cara começar a dar desculpas demais. Não há nada mais deprimente do que uma mulher que insiste em mentir pra si mesma.
No fim do dia, você vai perceber. Ele não está tão a fim de você.
quinta-feira, 26 de março de 2009
Minha alma canta...
O carioca de verdade, nascido e criado, ou como a expressão popular qualifica, "carioca da gema", morre de amores por essa cidade que, não a toa, é chamada de Maravilhosa. Chega a ser irritante e metido. O carioca gosta de ter a pele bronzeada, de falar arrastado e forçar o "s" com som de "x" quando está perto dos não-cariocas (porque pra nós, quem não é daqui é simplesmente não-carioca), se gaba por poder assistir o pôr-do-sol na praia - em qualquer praia - quando ele tiver vontade, sabe o gosto exato que tem o mate de latão com suco de limão, conhece de cor o roteiro dos bares da Zona Sul e a rota dos sambas da Lapa, e já até enjoou de biscoito Globo. Só o carioca consegue ouvir uma música de Tom Jobim, como Corcovado e Samba do Avião, e pensar "eu sei exatamente do que este cara tá falando...".
Além disso tudo, o carioca de verdade conhece e lamenta todos os problemas do Rio. Sabe que a favelização enfeia o que Deus parece ter pintado a mão. Sabe que a violência e o tráfico são um câncer quase em estado terminal. Sabe que se sair de carro as 7h da manhã ou as 17h da tarde vai demorar pelo menos duas horas pra chegar em casa, com o trânsito infernal que tem se instalado diariamente por aqui. Particularmente, trânsito me irrita de uma forma avassaladora, embora eu saiba que o problema aqui não chegue nem perto de outras capitais. Mas voltando para casa dia desses eu me deparei com um enorme no Aterro do Flamengo. Comecei a me irritar, a fumar cigarros seguidos, a trocar freneticamente a música que tocava, a xingar todas as pessoas do mundo...e parei. Parei porque olhei pro lado e o que eu vi foi mais ou menos o que as pessoas que atingem o Nirvana na meditação devem sentir. O que vi foi o Pão de Açucar banhado por luzes do fim de tarde, conferindo-lhe cores únicas. Ao redor dele, a Enseada de Botafogo cheia de barquinhos que parecem de brinquedo. E para coroar, um belo pôr-do-sol que, tenho certeza, estava ali só pra me dizer que se eu tiver um pingo de vergonha na cara eu tiro toda a irritação de dentro de mim. Afinal, olha só onde eu moro!
Além disso tudo, o carioca de verdade conhece e lamenta todos os problemas do Rio. Sabe que a favelização enfeia o que Deus parece ter pintado a mão. Sabe que a violência e o tráfico são um câncer quase em estado terminal. Sabe que se sair de carro as 7h da manhã ou as 17h da tarde vai demorar pelo menos duas horas pra chegar em casa, com o trânsito infernal que tem se instalado diariamente por aqui. Particularmente, trânsito me irrita de uma forma avassaladora, embora eu saiba que o problema aqui não chegue nem perto de outras capitais. Mas voltando para casa dia desses eu me deparei com um enorme no Aterro do Flamengo. Comecei a me irritar, a fumar cigarros seguidos, a trocar freneticamente a música que tocava, a xingar todas as pessoas do mundo...e parei. Parei porque olhei pro lado e o que eu vi foi mais ou menos o que as pessoas que atingem o Nirvana na meditação devem sentir. O que vi foi o Pão de Açucar banhado por luzes do fim de tarde, conferindo-lhe cores únicas. Ao redor dele, a Enseada de Botafogo cheia de barquinhos que parecem de brinquedo. E para coroar, um belo pôr-do-sol que, tenho certeza, estava ali só pra me dizer que se eu tiver um pingo de vergonha na cara eu tiro toda a irritação de dentro de mim. Afinal, olha só onde eu moro!
quarta-feira, 25 de março de 2009
Eu te odeio. Odeio tudo que vem de você. Odeio sua inconstância, suas mentiras, e a mentira que eu criei sobre você. Odeio sua falta de senso, de sensibilidade, sua indiferença. Odeio as palavras que você falou e eu acreditei. Odeio o som da sua voz tão perto e tão distante. Odeio a distância que você implantou, mais ninguém. Nem Deus, nem o Homem. Você.
Odeio os últimos tempos que passei aos pés da fantasia idílica da sua presença. Odeio as memórias, odeio os momentos. Odeio como você se comporta. Odeio o fato de que você não conseguiria nem em mil anos distinguir a ridícula diferença entre Hitchcock e Bertolucci. Odeio sua falta de interesse, sua falta de hombridade. Odeio as brincadeiras infantis que você fez. Odeio você ter cogitado a possibilidade de alguém ser melhor pra você, e odeio você ter comprado essa idéia. Odeio pensar que eu escrevo textos e leio poesias enquanto você liga para outro alguém, que não eu. Te odeio por ter me feito de idiota, boba, ridícula. Te odeio por ter bagunçado a minha vida, virado tudo de cabeça pra baixo. Te odeio por ter despertado em mim um sentimento que estava enterrado há tanto tempo, e que não precisava ressurgir agora. Te odeio, pois, por ter saído da minha vida como se nada tivesse ocorrido, nada tivesse falado, nada tivesse sido existido.
Te odeio muito, todos os dias.
E isso tudo porque, na verdade, eu te adoro demais. E por eu ter que gostar mais de mim, e por não poder mais gostar de você, eu te odeio. E preciso repetir todos os dias para mim mesma que te odeio. Odeio, odeio, odeio.
E ter que te odiar é, por fim, a máxima exaustão que eu já vivi.
Odeio os últimos tempos que passei aos pés da fantasia idílica da sua presença. Odeio as memórias, odeio os momentos. Odeio como você se comporta. Odeio o fato de que você não conseguiria nem em mil anos distinguir a ridícula diferença entre Hitchcock e Bertolucci. Odeio sua falta de interesse, sua falta de hombridade. Odeio as brincadeiras infantis que você fez. Odeio você ter cogitado a possibilidade de alguém ser melhor pra você, e odeio você ter comprado essa idéia. Odeio pensar que eu escrevo textos e leio poesias enquanto você liga para outro alguém, que não eu. Te odeio por ter me feito de idiota, boba, ridícula. Te odeio por ter bagunçado a minha vida, virado tudo de cabeça pra baixo. Te odeio por ter despertado em mim um sentimento que estava enterrado há tanto tempo, e que não precisava ressurgir agora. Te odeio, pois, por ter saído da minha vida como se nada tivesse ocorrido, nada tivesse falado, nada tivesse sido existido.
Te odeio muito, todos os dias.
E isso tudo porque, na verdade, eu te adoro demais. E por eu ter que gostar mais de mim, e por não poder mais gostar de você, eu te odeio. E preciso repetir todos os dias para mim mesma que te odeio. Odeio, odeio, odeio.
E ter que te odiar é, por fim, a máxima exaustão que eu já vivi.
terça-feira, 10 de março de 2009
Não leia esse post. Desligue a internet e vá dar uma espiadinha.
Todo início de ano é a mesma coisa. Somos bombardeados por anúncios que avisam, como se não perdêssemos por esperar, que a casa mais vigiada do Brasil está de volta. Eu realmente não espero, e juro que até esqueço que o Big Brother existe. E sempre clamo pelos quatro cantos que não vou assistir. Perda de tempo, futilidade.
Mentira.
Eu sempre acabo assistindo.
Continuo achando perda de tempo e futilidade, muito embora seja tiete do Bial e sei que, pelo menos dali, sai alguma coisa útil. Em sua nona edição, os participantes são exatamente os mesmos de todas as outras: O canalha, a gostosa, o estrategista, a burrinha, o injustiçado. Estereotipadas, essas personagens vão se configurando com ajuda bastante solícita de uma edição bem pensada. Com isso em mente, percebe-se uma vontade enorme por parte da direção de inovar, divertir de forma diferente, chocar. E milhares de cartas são tiradas da manga e enfiadas dentro do confinamento. Quarto branco, dois paredões em uma semana, xepa, casa de vidro, voto aberto. Até uma vovó simpática inventaram dessa vez.
O que me atrai no Big Brother, porém, é muito mais grave. Confesso de cara limpa, pois tenho certeza que muitos espectadores pensam da mesma maneira, embora não o falem, ou nem mesmo realizem este fato. Justamente pela construção de estereótipos e arquétipos maximizados (aqui sem absolutamente nenhuma relação com um dos integrantes da casa.) de alguma forma nos relacionamos interiormente com aquelas pessoas. Nos colocamos em seus lugares, nos vemos naquelas situações. E, porque eles invadem deliberadamente nossas casas todos os dias, nos sentimos íntimos e no direito de julgarmos suas atitudes, noções de justiça, casos, discussões, comportamentos, até mesmo forma física. “Fulana engordou tanto...”. Será que nós mesmos não engordaríamos? Não combinaríamos voto? Não entenderíamos mal algum fato? Não pré-julgaríamos de maneira errônea? Não encheríamos a cara e dançaríamos até o chão? Não iríamos pra debaixo do edredon? Não teríamos aquela pessoa com a qual simplesmente não vamos com a cara e faríamos de tudo para vê-la fora dali?
Dentro de nós há o diabinho que diz: “antes ele do que eu...”.
O problema é, ao enxergarmos ali personagens, e não pessoas, esquecemos que elas são como nós e, por isso, são passíveis de erros, acertos, e um bocado de bebedeiras. Só que as deles são regadas a Champagne.
Em jogo, não está fama. Ninguém fica realmente famoso por muito tempo depois do Big Brother (com exceção da Grazi, talvez.). Ok, em jogo está uma capa da Playboy ali, uma visita na Ana Maria Braga e no Faustão aqui, quando muito uma meia dúzia de propagandas acolá. Mas, acima de tudo, em jogo está um milhão de reais. E é nisso que penso toda vez que aponto o dedo pra condenar algum dos participantes.
Mas condeno, mesmo assim.
Mentira.
Eu sempre acabo assistindo.
Continuo achando perda de tempo e futilidade, muito embora seja tiete do Bial e sei que, pelo menos dali, sai alguma coisa útil. Em sua nona edição, os participantes são exatamente os mesmos de todas as outras: O canalha, a gostosa, o estrategista, a burrinha, o injustiçado. Estereotipadas, essas personagens vão se configurando com ajuda bastante solícita de uma edição bem pensada. Com isso em mente, percebe-se uma vontade enorme por parte da direção de inovar, divertir de forma diferente, chocar. E milhares de cartas são tiradas da manga e enfiadas dentro do confinamento. Quarto branco, dois paredões em uma semana, xepa, casa de vidro, voto aberto. Até uma vovó simpática inventaram dessa vez.
O que me atrai no Big Brother, porém, é muito mais grave. Confesso de cara limpa, pois tenho certeza que muitos espectadores pensam da mesma maneira, embora não o falem, ou nem mesmo realizem este fato. Justamente pela construção de estereótipos e arquétipos maximizados (aqui sem absolutamente nenhuma relação com um dos integrantes da casa.) de alguma forma nos relacionamos interiormente com aquelas pessoas. Nos colocamos em seus lugares, nos vemos naquelas situações. E, porque eles invadem deliberadamente nossas casas todos os dias, nos sentimos íntimos e no direito de julgarmos suas atitudes, noções de justiça, casos, discussões, comportamentos, até mesmo forma física. “Fulana engordou tanto...”. Será que nós mesmos não engordaríamos? Não combinaríamos voto? Não entenderíamos mal algum fato? Não pré-julgaríamos de maneira errônea? Não encheríamos a cara e dançaríamos até o chão? Não iríamos pra debaixo do edredon? Não teríamos aquela pessoa com a qual simplesmente não vamos com a cara e faríamos de tudo para vê-la fora dali?
Dentro de nós há o diabinho que diz: “antes ele do que eu...”.
O problema é, ao enxergarmos ali personagens, e não pessoas, esquecemos que elas são como nós e, por isso, são passíveis de erros, acertos, e um bocado de bebedeiras. Só que as deles são regadas a Champagne.
Em jogo, não está fama. Ninguém fica realmente famoso por muito tempo depois do Big Brother (com exceção da Grazi, talvez.). Ok, em jogo está uma capa da Playboy ali, uma visita na Ana Maria Braga e no Faustão aqui, quando muito uma meia dúzia de propagandas acolá. Mas, acima de tudo, em jogo está um milhão de reais. E é nisso que penso toda vez que aponto o dedo pra condenar algum dos participantes.
Mas condeno, mesmo assim.
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